O POST A SEGUIR CONTÉM SPOILERS!
Episódio 4 – Sic Semper Sistema
O quarto episódio de Demolidor – Renascido começa com os
desdobramentos do assassinato cruel de Hector Ayala e como isso afeta os seus
familiares. Na delegacia para onde o corpo foi encaminhado após ser encontrado
baleado, Matt Murdock, o advogado que ajudou a inocentar o réu da acusação de matar um policial nova-iorquino, é confrontado pela sobrinha de Ayala,
Angela (Camila Rodriguez), que culpa a polícia pelo que houve ao seu tio.
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Angela del Toro (Camila Rodriguez) |
Murdock tenta explicar à menina que não há provas concretas
de que as mesmas pessoas que prenderam Ayala foram as responsáveis pela sua
execução pouco depois do seu julgamento, mas sente nas palavras de vingança de
Angela que a cidade precisa daqueles que fazem a diferença. Que defendem os
mais necessitados como o seu tio fazia e como o Demolidor fazia antes da
aposentadoria.
Nos quadrinhos, a personagem Angela del Toro foi introduzida na Marvel em 2004 pela dupla Brian Michael Bendis e Alex Maleev num
arco de histórias do Demolidor. Após a morte do tio, Angela assume a identidade
do Tigre Branco, se tornando a Tigresa Branca que, desde então, ganhou bastante
notoriedade na cultura pop, inclusive numa das milhares animações do Homem-Aranha.
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A Tigresa Branca nas HQs e nas animações |
Disposto a descobrir o culpado pela morte de Ayala, Matt
decide intimidar mais uma vez o policial Powell (Hamish Allan-Headley), que é um dos oficiais
corruptos da delegacia. Porém, por meio de seus instintos aguçados, deduz que
não foi ele quem puxou o gatilho — pelo menos foi isso que a cena deu a
entender.
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Powell sendo confrontado por Murdock |
A investigação da polícia para o caso conclui que não foram
encontradas provas materiais que se conectem ao atirador e um dos investigadores
afirma que a cápsula da bala não estava no lugar do crime. É quando o advogado
cego começa a querer investigar por conta própria.
Em paralelo à situação de Matt, vemos mais uma sessão de
terapia de casal entre Wilson Fisk e Vanessa. Há uma forte tensão entre os dois
e um dos motivos da cisma entre eles é o caso extraconjugal que Vanessa teve
com um homem de nome Adam que, salvo engano, não chegou a dar as fuças na série
até onde eu prestei a atenção —
até aqui!
Heather
Glenn (Margarita Levieva) incita o casal a falar abertamente sobre o “elefante branco na sala” e é
quando Vanessa começa a dar detalhes da razão pela qual escolheu Adam para dar
uns pegas.
Bicho,
quem já teve algum relacionamento sério na vida deve ter suado de nervoso no
momento em que a Vanessa começa a falar na frente do marido sobre as mãos do
amante e da maneira como ele a acariciava. A cara de tesão dela e a de desprezo
no rosto do Fisk são impagáveis!
Enquanto
o imbróglio do casal Fisk não se resolve, o prefeito de Nova York se vê
pressionado ao tentar fazer melhorias na cidade e acaba enredado pela
burocracia que a coisa toda exige. A sua ideia de reformar o porto de NY e lhe dar uma nova cara é
boa, mas é considerada praticamente inviável pela sua secretária de
planejamento — ou seja lá qual for o seu cargo —, Sheila Rivera (Zabrina Guevara).
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Sheila Rivera, Wilson Fisk e Daniel Blake |
Por
obrigação do cargo, Fisk faz visitas a uma escola infantil e à festa de comemoração dos imigrantes letões da cidade, mas é nítido o desconforto na sua
expressão facial em estar naqueles lugares. Nesse ponto da história, o Rei do Crime que há dentro de
Wilson está contido e amarrado, mas louco para ganhar novamente a luz do dia.
É
difícil ter que agir de acordo com o sistema quando tudo que você quer é moer a
cabeça de algum capanga com a porta de um carro, não é mesmo?
Kirsten
McDuffie (Nikki M. James), a associada de Murdock no escritório de advocacia, indica um novo caso
que, segundo ela, vai agradar o amigo. Atendendo aos interesses do escritório,
então, Matt faz o primeiro contato com um homem chamado LeRoy Bradford (Charlie Hudson III), que está
preso acusado de ter roubado sacos de pipoca doce de um mercado.
Num
primeiro momento, o enfoque do episódio nos leva a crer que Bradford é um
desses malandros que querem se dar bem a todo custo e que a sua prisão é justa.
No entanto, o seu diálogo com Matt após o advogado ter lhe conseguido uma pena
de dez dias é o segundo melhor momento do episódio 4 inteiro.
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LeRoy Bradford (Charlie Hudson III) |
Com
seu jeito sarcástico — fazendo várias piadinhas sobre cegueira —, Bradford diz a
Matt porque não concorda em ficar preso nem um dia sequer. Segundo o cara, o
motivo de ele não conseguir se sustentar e ter que viver de restos nas lixeiras
é justamente porque o “sistema” não é capaz de amparar pessoas como ele, as
impedindo de ter uma vista justa e as obrigando a cometer delitos.
LeRoy lembra que o “sistema” prefere gastar o dobro de dinheiro para mantê-lo na prisão
do que alimentá-lo, ou permitir que ele coma, por exemplo, uma pipoca doce.
Essa é uma ótima alusão à vida real, onde os governos não investem em
assistência pública, não cuidam de seus cidadãos mais necessitados, mas pune com
rigor quando esse mesmo cidadão é obrigado a roubar para sobreviver.
São
essas pequenas nuances de humanidade e de “vida real” que tornam o enredo de
Demolidor – Renascido diferente de tudo que a Marvel já produziu para o
streaming até aqui e é por esses pequenos recortes de uma sociedade doente — e
aqui não estamos falando só sobre os Estragos Fudidos — que a série vale a pena de ser vista. Muito mais do que qualquer produção mequetrefe por aí lotada de
CGI e com a profundidade de um pires.
Aliás, falando em detalhes tão pequenos de nós dois… o que foi aquele flerte entre o Matt e Sofija Ozola (Elizabeth Anne Davis) — a advogada de descendência letã que define os dez dias de pena para o Bradford —, hein?
Matt
Murdock tem, como dizem por aí, o “molho” na boa e velha arte do xaveco. É
impressionante a maneira como ele dobra a menina só na lábia, só no
sambarilove. A cara dela quando ele vai embora é hilária. Só faltou a
mordidinha de lábio!
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Sofija Ozola (Elizabeth Anne Davis) aumentando a umidade relativa do ar |
Enquanto
Matt Murdock recebe uma lição gratuita de humanidade na cadeia, Wilson Fisk descobre
que virou chacota num post do blog da BB Urich e que está sendo chamado de “Prefeito do
Lixo” por uma questão não resolvida de saneamento básico na cidade.
Há um
vazamento de informações em seu gabinete que possibilitou a veiculação da
matéria e, após chilicar na frente de seus funcionários exigindo saber quem o
traiu, o seu assistente de campanha, Daniel Blake (Michael Gandolfini), acaba se entregando, dizendo que falou demais após uma noite de bebedeira com amigas críticas ao governo de
Fisk.
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Daniel Blake (Michael Gandolfini) suando frio na frente de Fisk |
Para
quem esperava cabeças sendo esmagadas por portas nessa cena de
confronto entre Fisk e Daniel, a decepção. Mais uma vez o prefeito atende ao
comportamento protocolar de um político e aceita as desculpas de seu assessor,
com o adendo de que se ele voltar a trai-lo, esse será o seu último erro.
Aí
vem a melhor sequência e também a pior do episódio.
Ainda
engasgado com a morte de Hector Ayala, Matt visita o cenário onde o
porto-riquenho foi assassinado e usa dos seus sentidos ampliados para encontrar aquilo que nem a polícia se deu ao trabalho de investigar. Ele percebe que há
um desnível no terreno onde o tiro fatal foi disparado e conclui que a cápsula da
bala desaparecida só pode ter rolado para um bueiro onde ele — BINGO! — a
encontra.
Depois
disso, Murdock ouve passos que o atraem para um determinado ponto mais afastado
da cidade, e onde ele acaba encontrando um depósito abandonado. Ali, sem muitas
explicações visuais ou mesmo descritivas, o advogado reencontra ninguém menos
que… Frank Castle (Jon Bernthal).
Eu
posso ter cochilado nessa cena, mas eu não vi conexão nenhuma com o som ouvido
por Matt e o fato de ele ter chegado justamente ao esconderijo de Castle. Na
minha humilde opinião de merda, toda essa sequência entre o encontrar da cápsula e o
embate entre Castle e Murdock foi muito malconduzida.
Sem
falar que o reencontro dos dois também foi bem anticlimático.
A
cena em que Frank ataca Matt sem reconhecê-lo num primeiro momento é filmada em
plano aberto, o que evidencia ao espectador a lentidão de movimentos dos dois
atores, quase como se eles tivessem (DÃÃ!) ensaiado para que o empurrão não
machucasse o Charlie Cox. Um plano mais fechado na expressão de ambos
resolveria esse problema.
Apesar
do reencontro meio bosta, o diálogo dos dois a seguir compensa toda a falta de
tecnicidade da cena anterior. Matt mostra que a cápsula da bala que matou
Hector Ayala possui o logotipo da caveira usado por Castle e diz que policiais
corruptos de NY estão se apropriando do símbolo para cometer crimes.
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Bala na caveira... digo, caveira na bala |
Ao
contrário do que a gente pensava, Castle não fica puto com a notícia, e só chama os
imitadores de “baba ovo” ou “lambe saco”... alguma coisa assim.
Então,
os dois voltam a divergir quanto ao modus operandi de cada um: Castle matando a
sangue frio aqueles que considera fora-da-lei e Murdock os prendendo para que
cumpram a sua pena de acordo com o sistema.
Castle
discursa que ouve a voz do seu filho assassinado lhe dizendo para punir todos
os desajustados dessa cidade e pergunta a Matt se ele também ouve a voz de
Foggy, o seu amigo morto pelo Mercenário.
Aqui
as atuações de Cox e Bernthal, enquanto os dois dialogam, dá aquele quentinho no
coração porque é nítido que ambos estão muito confortáveis em seus papeis. Os dois
entendem de Demolidor e Justiceiro e se entregam de verdade às cenas mais
dramáticas entre eles.
Só de
ouvir o Justiceiro chamando Murdock de “Red” (Vermelho) como ele chamava na
segunda temporada de Daredevil já é motivo de comemoração. Sem falar que ele se
refere a Ben Poindexter como “Mercenário”, título que, salvo engano, nunca foi
mencionado antes na série.
Não
há um embate físico entre eles — exceto um soco que Murdock desfere em Castle
quando é forçado a dizer o nome de Foggy —, mas essa é com certeza a melhor
cena do episódio todo.
É
impressionante que a Marvel ficou gastando dinheiro com merdas como Cavaleiro
da Lua e Invasão Secreta ao invés de investir cada centavo em mais temporadas
de Demolidor, Justiceiro e companhia. Bicho, eu topava até uma série da Elektra
contra o Tentáculo só para ver mais dos meus personagens urbanos queridos em tela!
Depois do encontro com Castle, Murdock volta para casa e reencontra Heather, que agora o visita com mais frequência. Ele desabafa sobre a injustiça cometida contra seu cliente Ayala e ela menciona que teria que matá-lo se falasse mais abertamente sobre seus clientes.
Depois de uma trepadinha diliça, Murdock vai até o andar superior do seu apartamento e lá dentro de uma sala especial, descobrimos que o cara mantém todas as suas velhas traquitanas de combatente do crime, inclusive alguns capuzes que nunca o vimos usar.
Apesar de resistir a isso com todas as forças, ele sente falta de ser o Demolidor e treina com seu bastão no telhado, enquanto a cidade dorme.
Enquanto isso, em algum lugar não tão longe dali, vemos Wilson Fisk igualmente sedento para reassumir a sua persona criminosa. Durante a sessão de terapia entre ele, a esposa e a terapeuta Heather, é mencionado que nem Fisk e nem Vanessa sabem do paradeiro de Adam, o amante da mulher, mas durante esse vislumbre, descobrimos que o cara está sendo mantido preso pelo ex-gordão e que, muito provavelmente, está sendo torturado por ele há vários dias.
O
episódio termina dando um foco especial na figura do Muso, personagem mascarado
que aparece de relance também no começo do episódio carregando uma de suas vítimas para o
subterrâneo da cidade onde vai… sugar o seu sangue?
Sei
lá. Não sei qual é a desse personagem, mas aparentemente ele fará parte do mote
principal do episódio seis. Até lá!
P.S. - O termo "Sic Semper Sistema" que dá título ao episódio 4 é uma citação ao lema "Sic semper tyrannis" que em latim significa "assim sempre aos tiranos". A frase é usada no estado da Virgínia, nos Estragos Fudidos, e mencionada como um grito contra o abuso de poder. Na linguagem contemporânea, significa que os líderes tirânicos serão inevitavelmente derrubados.
No contexto do episódio, simboliza que o "Sistema" é o tirano a ser combatido, tema muito discutido ao longo da série.
Abaixo o review do Blog do Rodman do primeiro e do segundo episódio de Demolidor - Renascido
E aqui o review do terceiro.
NAMASTÊ!
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