Concluí ontem (14/03) a lista de filmes indicados à categoria de Melhor Filme no Oscar 2026 e deixarei aqui as minhas impressões sobre o que achei de cada produção.
Sem mais delongas, sigam-me os bons!
1 - Pecadores
As 16 indicações no Oscar 2026 é um feito inédito, ainda mais se considerarmos que o filme de Ryan Coogler é da categoria "terror", normalmente esnobada no Oscar. Ao meu ver, Pecadores é o melhor dos 10 indicados em vários aspectos, mas principalmente na fotografia e nas atuações.
Michael B. Jordan tem tudo para levar o prêmio de Melhor Ator por causa da sua atuação incrível dos gêmeos Smoke e Stack — e, nesse caso, ele apresenta algo novo ao gênero "vampiro" —, mas é com certeza na direção de Coogler que Pecadores mais ganha força.
E, por falar em música, não podemos nos esquecer que ela é o tema central da história e o elemento que conduz grande parte das ações tomadas ao longo do enredo.
2 - O agente secreto
É o ufanismo exacerbado que me fez ranquear o filme de Kleber Mendonça Filho na segunda colocação do TOP 10, embora reconheça que a produção funcione mais para os brasileiros e o seu regionalismo do que para os gringos que irão votar na categoria de Melhor Filme no Oscar.
Temos chances? É claro que temos, mas na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Em Melhor Filme acho muito difícil que o Brasil seja obrigado a instituir feriado nacional na segunda (16) por causa de uma vitória histórica no maior prêmio de cinema.
3 - Uma batalha após a outra
As apostas estão altas colocando o filme de Paul Thomas Anderson como o FAVORITO da noite do Oscar e a produção tem mesmo o seu valor para estar tão bem cotada. É uma história divertida encabeçada por um elenco de primeira que vai brigar pelo principal prêmio da noite.
4 - Valor sentimental
Dirigido pelo dinamarquês Joachim Trier, o filme conta uma história muito comovente sobre problemas paternos, mas acima de tudo, sobre família e como ela, apesar dos percalços cotidianos, é a base para que a nossa sanidade continue intacta.
Diferente de Hamnet, "Valor Sentimental" conseguiu fazer com que eu me conectasse muito mais ao drama do pai ausente que procura se reaproximar da família, sem falar que as atuações de Renate Reinsve e Stellan Skarsgård são um DESBUNDE do primeiro minuto ao último de projeção. 10/10.
5 - Frankenstein
Quem leu o livro de Mary Shelley não curtiu a adaptação de Guillermo del Toro para a história do monstro mais famoso da literatura, mas eu particularmente achei a produção de arte dele impecável. Tem cara de "filme de Oscar", além da marca indelével do diretor mexicano nos detalhes.
6 - Sonhos de trem
Dirigido por Clint Bentley (Sing Sing) é o filme com menos chances de levar o prêmio de Melhor Filme, mas com certeza é o mais comovente da lista. Aqui o foco é na vida trágica de um lenhador (Joel Edgerton) e como a sua vida passa por entre os seus olhos como num sonho não vivido.
E não podemos nos esquecer que o brasileiro Adolpho Veloso está indicado na categoria de Melhor Fotografia por seu trabalho em Sonhos de Trem e é claro que a nossa torcida está alta, embora a concorrência seja grande com Frankenstein e o próprio Pecadores também na disputa.
7 - Marty Supreme
O personagem central é detestável, o ator principal é detestável e o diretor Josh Safdie, ao que parece, também é detestável... isso não quer dizer que o filme seja ruim. É impressionante como uma história sobre um jogador de ping pong pode se tornar tão interessante de acompanhar.
8 - Hamnet: A vida antes de Hamlet
Hamnet: A vida antes de Hamlet tem cara de "filme para Oscar" e não me surpreenderia se realmente levasse a principal estátua da noite. É bem dirigido (Chloé Zhao), bem produzido (Steven Spielberg) e tem uma das maiores atuações de atriz entre os 10 filmes indicados (Jessie Buckley).
Dito isso... o filme não me pegou de jeito nenhum. Aliás, pelo contrário. Assisti em uns dois dias dividido como numa série e não consegui me conectar ao drama do Shakespeare pela morte do filho. Pouca coisa na história me comoveu, mas entendo o potencial de Oscar do filme. Zhao dirigiu uma obra prima aqui que não é para todo tipo de público.
9 - Bugonia
Bugonia é aquele tipo de filme que te deixa interessado mais pelas atuações do que necessariamente pela história. Emma Stone e Jesse Plemons estão ótimos em cena, mas o enredo dirigido por Yorgos Lanthimos soa como uma crítica vazia aos teóricos da conspiração, quase dando razão a eles.
10 - F1 - O Filme
Dirigido por Joseph Kosinski (Top Gun Maverick), F1 conta a história de um piloto veterano (Brad Pitt) que é chamado de volta às pistas para salvar uma equipe da bancarrota. O ponto forte de F1 é a parte técnica. As corridas são muito bem executadas, mas o roteiro é um fio de cabelo: o protagonista é estado-unidense, logo, ele é fodão e vai ensinar todos os outros como é que se dirige um carro de Fórmula 1.
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Falei com mais detalhes sobre Pecadores, O Agente Secreto, Uma Batalha Após a Outra e Frankenstein no post abaixo:
No último dia 02 de março rolou no Dolby Theatre a 97ª
edição do Oscar e no Brasil a festa não podia ser maior. Em pleno Carnaval, o
filme "Ainda Estou Aqui" levou a estatueta de Melhor Filme Internacional,
desbancando entre outras produções, o “francês” Emilia Pérez.
É clima de Copa do Mundo, amigo! Haaaaja coração!
MELHOR ATOR COADJUVANTE
A noite de premiação começou com Robert Downey Jr. —
vencedor do ano passado por seu papel em “Oppenheimer” — anunciando o prêmio de
Melhor Ator Coadjuvante para Kieran Culkin por sua atuação em “A Verdadeira Dor”.
Kieran Culkin premiado por "Real Pain"
O irmão do Macaulay Kulkin já tinha vencido o Globo de Ouro
pelo mesmo papel no filme dirigido e atuado por Jesse Eisenberg e repetiu a
dose no Oscar com um discurso bastante espirituoso sobre o palco.
Apesar de ser o coadjuvante no filme, Culkin mostra o tempo
todo porque tem sido tão premiado ultimamente por suas atuações — ele também
levou o Emmy de Melhor Ator em Série Dramática por "Succession". Em “Real Pain” o
seu personagem flutua o tempo todo entre o humor rasgado e a melancolia total, e a história
dos dois primos — ele e o personagem de Eisenberg — que visitam os campos de concentração nazistas onde os seus
avós foram torturados, exige dele uma interpretação mais densa que realmente o gabarita para vencer o Oscar.
Nessa categoria, Kulkin superou Guy Pearce ("O Brutalista"), Edward Norton ("Um Completo Desconhecido"), o competente Yura Borisov (de "Anora") e o mal-humorado Jeremy Strong ("O Aprendiz"), que ficou com uma tremenda cara de cu ao longo de toda a cerimônia!
MELHOR DOCUMENTÁRIO
Na categoria Melhor Documentário, quem levou o prêmio da
noite foi “No Other Land”, filme produzido por um coletivo palestino-israelense
que mostra a destruição de Masafer Yatta por soldados israelenses na
Cisjordânia ocupada, além da aliança que se desenvolve entre o ativista palestino
Basel e o jornalista israelense Yuval.
A equipe do filme "Sem Chão"
Ao subir ao palco para receber a estatueta, a equipe do
documentário pediu o fim do genocídio do povo palestino, situação trágica que
tem ocorrido desde outubro de 2023, quando começaram as tensões entre Israel e
o grupo terrorista Hamas. Desde então, mais de 40 mil palestinos já morreram
num conflito em que apenas um lado é massacrado às vistas do mundo inteiro, e
nada de mais efetivo para botar um ponto final nessa guerra tem sido feito.
Assim como “Ainda Estou Aqui”, que escancara uma realidade cruel vivida no Brasil há vários anos, “No Other Land” também serve como um alerta
e um pedido de socorro de um povo que vive com um alvo estampado na testa constantemente, sem
que as forças internacionais sequer pensem em ajudar.
"Sem Chão", como foi traduzido por aqui, está em cartaz em alguns cinemas nacionais, sem previsão de chegar aos serviços de streaming.
MELHOR CURTA ANIMADO E MELHOR CURTA DOCUMENTÁRIO
Os prêmios de Melhor Curta Animado e Melhor Curta
Documentário foram para “In The Shadow of The Cypress” e “The Only Girl in The
Orchestra” respectivamente. A animação de 2023 é dirigida por Shirin Sohani e
Hossein Molayemi, e é uma produção iraniana. Já o curta-documentário é uma
produção da Netflix que foi dirigida por Molly O’Brien.
MELHOR ANIMAÇÃO
Falando em animação, quem levou o maior prêmio da noite nessa
categoria foi o simpático “Flow”, da Letônia. O filme foi todo desenvolvido por
meio do Blender e os criadores da produção enfatizaram que o uso da tecnologia
de software livre foi essencial para que toda a composição das cenas de aventura do
gatinho preto fossem realizadas.
"Flow" como Melhor Animação
“Flow” desbancou grandes estúdios como a Pixar, que entrou
na disputa com seu tocante “Divertida Mente 2” e bateu de frente também com
outros filmes mais autorais como “Wallace & Gromit: A Vingança” e o
australiano “Memórias de um Caracol”.
Apesar de ter achado a fluência de movimentos do gato e de
seus amigos animais — não antropomorfizados, diga-se de passagem — excelentes,
a história do gatinho perdido num mundo submerso em água não me tocou tanto
quanto “Robô Selvagem” da DreamWorks.Fazia tempo que eu não me acabava de chorar como aconteceu enquanto eu
assistia a essa animação dirigida pelo competente Chris Sanders (de “Lilo &
Stitch”), mas a tocante história de uma robô que se afeiçoa a um filhote de
ganso me quebrou de uma maneira muito peculiar.
O emocionante "Robô Selvagem"
Apesar da rivalidade entre os dois projetos, vale a conferida em ambos. Os filmes
funcionam tanto para crianças quanto para adultos, e o que não faltam são
mensagens positivas nas duas histórias. “Robô Selvagem” se encontra para alugar
na Amazon Prime e "Flow", por enquanto, só está nos cinemas — ou no seu
aplicativo de pirataria mais próximo.
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE E MELHOR CANÇÃO
Com 13 indicações no total, o francês "Emilia Pérez" chegou ao
Oscar como um possível arrasa-quarteirão que iria papar todos os prêmios à
vista, tal qual um “Oppenheimer”.
No entanto, o que vimos na cerimônia de ontem
foi a queda da realidade de um filme medíocre, produzido por pessoas medíocres
que apostaram alto na questão de gênero para encantar os votantes da Academia,
mas cuja campanha negativa facilitada pelas declarações preconceituosas de sua
atriz principal acabou fazendo com que a produção naufragasse — pelo menos no tocante a cuestão do Oscar, talkey?
Apesar da nossa torcida contra disso, Zoë Saldaña confirmou o seu favoritismo
levando o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel como Rita Mora, a
advogada de Emilia Pérez. A atriz de ascendência porto-riquenha enfatizou as suas
origens no discurso da vitória e ainda arriscou algumas palavras
em espanhol, idioma que ela fala em quase 80% do filme dirigido por Jacques
Audiard.
Zoë Saldaña
Saldaña desbancou as atrizes Ariana Grande (“Wicked”),
Felicity Jones (“O Brutalista”), a veterana Isabella Rossellini (“Conclave”) e
Monica Barbaro (“Um Completo Desconhecido”), provando após muitos anos de
atuação, que era mesmo a sua hora de brilhar — apesar de ela fazer parte do
elenco de três das atuais cinco maiores bilheterias do cinema por seus papeis
nas franquias Avatar e Vingadores.
"Emília Pérez" também se saiu vitorioso no Oscar de Melhor Canção Original com "El Mal", repetindo o que aconteceu no Golden Globes. A música interpretada em uma parceria entre Zoë e Karla Sofía Gascón, bateu ninguém mais do que sirElton John, que concorria com "Never Too Late", composta para o documentário homônimo sobre a sua carreira.
Aparentemente, os votantes dessa categoria não conhecem muito de música, não é mesmo?
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Com fortes chances de vencer o maior prêmio da noite,
segundo alguns especialistas, “Conclave” saiu do Teatro Dolby com apenas uma
estatueta debaixo do braço. O filme que fala sobre a reunião de cardeais para a escolha de
um novo Papa ganhou na categoria de Melhor Roteiro Adaptado (de Peter
Straughan) e mais nada. A produção disputava oito categorias, entre elas, Melhor
Ator (Ralph Fiennes) e Melhor Filme, mas acabou passando quase despercebida na
premiação.
MELHOR FILME INTERNACIONAL
Para os brasileiros, o grande momento da noite foi mesmo a
inesquecível premiação de Melhor Filme Internacional que consagrou “Ainda Estou
Aqui” como o primeiro filme brasileiro a ganhar um Oscar.
Na disputa, além do já citado “Emilia Pérez”, estavam também
“A Garota da Agulha” (da Dinamarca), “A Semente do Fruto Sagrado” (do Irã) e novamente “Flow”
da Letônia. Eu não me lembro de outra situação em que uma animação ocupou
vaga de Melhor Filme Internacional com live-actions, mas confesso
que suei frio quando “Flow” apareceu na lista e começou a despontar como
favorito nos prêmios de Melhor Animação.
Para quem acompanhou a batalha de Walter Salles e de
Fernanda Torres nos últimos seis meses para que a história de “Ainda Estou Aqui”
fosse vista e reconhecida no circuito de festivais internacionais, a sensação de vitória dentro do peito foi quase tão grande quanto a deles.
Os momentos que antecederam a leitura do envelope feita pela
atriz Penélope Cruz me causaram uma taquicardia absurda, tudo isso para
explodir na catarse em que foi ouvir “I’m Still Here” soando com o sotaque
delicioso da espanhola.
Sobre o palco, no momento do agradecimento, o diretor Walter
Salles voltou a lembrar a luta de Eunice Paiva, a personagem central do longa,
para o reconhecimento das barbaridades praticadas pela Ditadura Militar no
Brasil, no período de 1964 a 1985, e ainda agradeceu:
“Muito obrigado em nome do cinema brasileiro. Depois de uma
perda tão grande durante o regime autoritário decidiu não se dobrar e não
desistir, esse prêmio vai para ela, Eunice Paiva. Pra Fernanda Torres e
Fernanda Montenegro”.
Na internet o frenesi foi gigantesco, e foi muito divertido
comemorar feito a um Pentacampeonato de futebol a consagração de um filme que, além de servir como um recorte de um passado ainda muito presente na nossa
história, é também muito bem-produzido, muito bem-filmado, muito bem-dirigido
e, principalmente, muito bem-atuado por seus protagonistas.
Não tem como não
ficar orgulhoso dessa obra e também do prêmio que mostrou não só para o Brasil
como também para o mundo que nós “Ainda Estamos Aqui” e lutaremos sempre contra os regimes ditatoriais recorrentes que assombram a nossa história.
MELHOR FIGURINO E MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
O filme “Wicked”, que transporta para as telas o espetáculo
homônimo da Broadway e que faz parte do superestimado universo de “O Mágico de
Oz”, saiu com dois prêmios, o de Melhor Figurino (para Paul Tazewell) e Melhor
Direção de Arte (para Nathan Crowley e Lee Sandales).
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADO
“A Substância” que, antes da premiação, tinha sido elevado como o favorito do Oscar, levou apenas o prêmio de Melhor Maquiagem e Penteado,
derrotando outras produções como “Nosferatu” e “Wicked” que também usaram e
abusaram da maquiagem para compor os seus personagens.
Melhor Maquiagem para "A Substância"
MELHORES EFEITOS ESPECIAIS E MELHOR SOM
O espetacular e grandioso “Duna – Parte 2”, que é
infinitamente mais empolgante que o primeiro, também recebeu a sua compensação
em dois prêmios técnicos, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som.
O longa
dirigido por Dennis Villeneuve, ainda disputava o prêmio mais cobiçado da noite,
relacionado entre os dez maiores filmes, mas não teve muita chance contra o
papa-Oscar de 2025.
O MELHOR DA NOITE
Então… veio “Anora”, e todos — ou quase todos — se regozijaram!
Nadando contra a maré de cinéfilos que via o longa de Sean
Baker apenas como “mais uma produção misógina e superficial de Hollywood”, eu
escrevi aqui antes das premiações que “Anora” era sim um dos meus favoritos entre os dez mais e
que o filme, entre todos os que eu acompanhei para chegar inteirado no Oscar,
foi o único que me despertou um real interesse e que eu assistiria de novo sem
qualquer obrigação de “ver só por causa do Oscar”.
Mikey Madison como "Anora"
As premiações do longa começaram com a estatueta de Melhor
Roteiro Original, assinado pelo próprio Sean Baker que se baseou em uma
história real entre um amigo seu e uma stripper que foi sequestrada na Europa.
Logo depois, ganhou por Melhor Montagem que novamente levou Sean
Baker ao palco para recebê-lo, uma vez que o diretor de 54 anos também foi
responsável pela edição do longa. Aliás, nessa parte, Baker fez um comentário
espirituoso sobre “ter salvado o filme na edição” e que se não fosse por ele “o
diretor do filme nunca mais trabalharia em Hollywood”.
Ironicamente, ou não, Baker também venceu na categoria Melhor
Direção, batendo os tarimbados James Mangold (de “Logan” e que concorreu ao
Oscar por “Um Completo Desconhecido”) e Brady Corbet (de “O Brutalista”). Baker
também superou a única diretora entre os finalistas, Coralie Fargeat, de “A
Substância”, e para delírio geral da nação, bateu também o arrogante Jacques
Audiard de “Emilia Pérez”.
Sean Baker e seus quatro Oscars
Até aí, tudo corria bem, uma vez que “Anora” merecia mesmo
as premiações que disputou não só pela divertidíssima história tragicômica que
proporcionou à audiência, mas também para enaltecer o trabalho triplo que Baker teve em escrever, filmar e editar o longa sozinho. Parecia de bom tamanho o que o cara já havia ganhado até ali, mas então, vieram as premiações mais surpreendentes da noite.
Mikey Madison, que deu vida a dançarina erótica do título, venceu a categoria
de Melhor Atriz, derrotando não só a favorita da noite, Demi Moore — que ganhou
o Globo de Ouro por sua atuação em "A Substância" e que lhe rendeu um dos discursos mais inflamados
antietarismo do ano —, como também derrotou a nossa Fernanda Torres, que era vista
como a melhor entre as concorrentes depois de Moore.
Fernanda Torres e Demi Moore
Mikey é indiscutivelmente uma boa atriz que, no futuro, com certeza vai
despontar como uma das melhores da sua geração, mas a meu ver — e de todo o
Brasil! — premiá-la nessa noite foi um erro gravíssimo, em especial por tudo que o papel
de Elisabeth Sparkle representou na carreira de Demi Moore.
Moore como Elisabeth Sparkle em "A Substância"
Premiar Madison — que só tem 25 anos! — enquanto a moça
disputava com Moore que estava ali por interpretar uma personagem que sofreu de
etarismo e que justamente por isso tomou a substância do título do filme para
rejuvenescer e voltar às glórias do passado, foi no mínimo irônico por parte da
Academia Cinematográfica. Para não dizer grosseiro.
O Oscar de Melhor Atriz foi praticamente uma assinatura e um
carimbo na testa de Moore que "Sim. Você está velha mesmo e nós vamos premiar uma
atriz novinha no seu lugar para colocá-la sob os holofotes que já foram seus!”.
E cá entre nós, com todo o respeito a Demi Moore e a Mikey
Madison, mas a Fernanda Torres comeu as duas com farinha em matéria de
interpretação em “Ainda Estou Aqui”. Nem tem o que dizer!
Coroando ainda mais as polêmicas da noite, “Anora” superou “Conclave”,
“O Brutalista”, “A Substância” e o próprio “Ainda Estou Aqui” em Melhor Filme, e
saiu consagrado do Dolby Theatre com nada menos do que CINCO estatuetas das seis
que disputou.
Eu não vi “O Brutalista” com as suas infindáveis três horas e
quarenta minutos de projeção, mas apenas analisando superficialmente as
críticas ao looooonga, era bem fácil acreditar que a história que premiou
Adrien Brody como Melhor Ator tinha muito mais conteúdo a apresentar do que “Anora”. Sem
falar que “Conclave” era um filme muito mais com “cara de Oscar” do que a
produção criada por Sean Baker.
Adrien Brody como Melhor Ator por "O Brutalista"
Não posso negar que eu gostei muito de “Anora” e que
certamente vou reassisti-lo no futuro assim que surgir em algum streaming, mas que essa premiação de “Melhor Filme”
e de “Melhor Atriz” foi bastante exagerada, principalmente se levarmos em
consideração que o longa já tinha sido devidamente premiado na noite, ah, isso
foi!
P.S. – O prêmio de Melhor Curta-Metragem saiu para o ÚNICO
filme que tive a oportunidade de assistir esse ano. “I’m Not A Robot” é um
interessantíssimo curta sobre uma mulher que falha incansavelmente em provar
que não é um robô para um teste de captcha de internet, o que coloca em xeque a
sua própria percepção de humanidade. Aproveita que o filme está disponível no
Youtube e pode ser visto agorinha, agorinha!
P.S. 2 – E o vácuo que o Walter Salles, não-intencionalmente
(pelo menos eu acho!), deixou o coitado do Edward Norton na hora de receber o
prêmio de Melhor Filme Internacional, hein? Eu não vi na hora, mas quando
reprisou o momento na Globo, deu pra ver direitinho a cara de tacho do ator, que
só pôde mesmo ser consolado por nossa Fernandinha Pikachu logo em seguida.
P.S. 3 - E o que foi o discurso interminável do "Pianista" Adrien Brody na hora de receber o seu Oscar de Melhor Ator, o segundo da sua carreira? O John Lithgow não gostou nada nada dessa demora toda!
Eu falei dos vencedores do Oscar desse ano "Anora" e "Ainda Estou Aqui" recentemente no Blog do Rodman. Para acompanhar a resenha sobre "Conclave" e "Emilia Pérez" clica no banner aí embaixo.
Chegou aquela época do ano em que a gente deixa um pouco de
lado os filmes de bonecos fazendo “piw piw” e assume a nossa persona de Rubens
Ewald Filho para falar um pouco sobre FILMES QUE PRESTAM de verdade.
No Combo Breaker de hoje, vou destacar Emilia
Pérez, Anora e Conclave, todos eles disputando com Ainda Estou Aqui o prêmio
máximo do cinema no Oscar 2025.
Sigam-me os bons!
Emilia Pérez
Dirigido pelo já polêmico Jacques Audiard (“Ferrugem e Osso”,
de 2012) Emilia Pérez conta em forma de musical a história do chefe de cartel
de drogas mexicano, Juan Manitas (Karla Sofía Gascón) que decide contratar uma advogada
em evidência na mídia para que ela possa ajudá-lo a fazer a sua transição de gênero em
sigilo. "Matando” assim a sua persona masculina para sempre.
Jacques Audiard e o elenco de Emilia Pérez
No enredo, a advogada Rita Mora (Zoë Saldaña) acabou de
ganhar uma causa onde conseguiu safar um criminoso da prisão quando ela é abordada por
Manitas, que lhe oferece uma caralhada de dinheiro em troca dos seus serviços.
Em seu primeiro encontro para tratar sobre negócios, Rita fica
cara a cara com o narcotraficante em seu esconderijo, e se sente tentada a ajudá-lo com o seu problema de falta de identificação de gênero, porque, afinal, ela é
uma fodida que precisa muito da grana.
Karla Sofía Gascón como "Manitas" e Zoë Saldaña
Nesse encontro, Rita também conhece a esposa de Manitas,
Jessi (Selena Gomez), além dos dois filhos do casal, e isso faz com que ela
repense momentaneamente em aceitar ou não a proposta do traficante.
Selena Gomez e sua fluência ZERO em espanhol
Embora isso
não fique muito claro ao espectador num primeiro momento, Manitas não pretende
voltar a ver a sua família após a sua redesignação sexual, dando também um “migué”
em seus comandados e na sua vida criminosa. É por essa razão que Rita
chega a pensar em desistir de ajudá-lo.
Por fim, ela aceita e foda-se! “Vou ficar milionária e a
família do meu cliente que se lasque!”
Logo após Rita concordar em conhecer algumas das clínicas que façam a cirurgia
de transgenitalização de maneira discreta, vem uma das cenas mais constrangedoras
que eu já assisti na minha vida. O momento em que a advogada visita uma clínica na Tailândia e
que rola o musical que virou meme na internet de tão absurda!
“Homem para mulher ou mulher para homem?”
“Homem para mulher”
“Então, pênis para vaginaaaa”
É sério. Fiquei imaginando alguém que passou por uma transgenitalização de verdade assistindo a essa sequência vergonhosa que trata com humor escrachado um assunto tão sério!
E tudo isso com musiquinha e dancinha… como se o filme fosse
editado por um adolescente no TikTok!
O filme em si tem muitos momentos embaraçosos e a listagem
parece infindável quando paramos para pensar um segundo sobre o que estamos assistindo
na tela. Para começar, a maneira estereotipada com que o diretor Jacques
Audiard enxerga o Méxicoe a sua cultura. O francês chegou a visitar o país
antes das filmagens, mas admitiu que a visão que ele tinha do México “não
condizia com a realidade que ele encontrou lá” ao visitá-lo.
No final, ele mandou um foda-se ao que os mexicanos poderiam pensar a esse respeito e decidiu continuar até o fim com a
sua representação preconceituosa sobre o que ele pensava ser o México —
um lugar onde a criminalidade impera, com mariachis cantando no meio da rua, onde se faz pouco caso quanto aos desaparecidos mexicanos mortos pelo narcotráfico e onde as cidades têm um aspecto de mundo pós-apocalíptico de tão sujas e destruídas.
É como se um norte-americano tentasse fazer um episódio dos Simpsons sobre o Brasil sem nunca ter visitado o país e colocasse no desenho
todos os seus preconceitos e estereótipos representados graficamente na tela, com macacos espalhados pela cidade, mulheres nuas andando nas ruas sacudindo os peitos e selva onde deveria haver prédios e asfalto.
Em outra de suas falas polêmicas, Audiard ainda relacionou o idioma espanhol — falado em quase 80% do seu filme — com pobreza e depois pediu desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas de alguma forma pelo seu filme.
Declarações polêmicas de Jacques Audiard
É o famoso "foi mal, eu tava doidão"!
Para jogar de vez uma pá de merda sobre o filme, a própria
atriz que interpreta a personagem título do filme acabou sendo desmascarada
como sendo uma bela de uma racista ainda durante a campanha de premiações do longa. Em postagens antigas, a espanhola Karla Sofía Gascón destilou o seu veneno nas redes sociais contra
negros, muçulmanos e outras minorias, esquecendo completamente que ela também faz
parte de uma minoria, a das pessoas trans.
"... a sua religião [Islã] é incompatível com os valores ocidentais."
Em tempo, Emilia Pérez tem VARRIDO as premiações a que tem sido
indicado desde o ano passado, e entre esses prêmios, levou, inclusive o Golden Globe de Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Atriz Coadjuvante (para Zoë
Saldaña), Melhor Filme em Língua Não-Inglesa e Melhor Canção Original com “El
Mal” na interpretação das próprias Zoë Saldaña e Karla Sofía Gascón.
Emilia Pérez concorre a 13 estatuetas do Oscar nesse ano e
mesmo com o escândalo das declarações infelizes de Gascón e do show de
estereótipos criado pelo diretor francês, o filme tem fortes chances de
garantir pelo menos uma dessas estátuas, batendo de frente com “Ainda
Estou Aqui” em todas as categorias que o brasileiro tambémdisputa.
Na internet, nem os próprios mexicanos “representados” no
cinema pelo filme "tankaram" essa produção, e até a comunidade LGBT pareceu não ter ficado muito satisfeita com a maneira no mínimo desrespeitosa com que foi
mostrada em tela.
Mas, sabe quem adorou o filme e que tá doido para premiar Emilia
Pérez por “dar visibilidade à causa trans”? Os velhos da academia de cinema estadunidense
que, na realidade, tão pouco se fodendo tanto para as pessoas trans quanto para os mexicanos!
Anora
Tirando Emilia Pérez, que já assisti tendo alguma noção do que
se tratava a história do filme, esse ano eu tentei ver as produções que
disputam o Oscar de Melhor Filme antes de me inteirar sobre as suas sinopses,
ou mesmo dar uma conferida nos trailers.
A tragicomédia Anora foi um desses casos que assisti “no pelo”. Até antes
de começar a projeção, eu não fazia a mais puta ideia do que se tratava o
filme, mas acabei me surpreendendo muito positivamente com a produção que levou
a Palma de Ouro em Cannes em 2024 — um dos prêmios mais prestigiados do cinema.
Na história, Ani — ou Anora, como ela realmente se chama — vivida
pela atriz Mikey Madison, é uma jovem stripper do Brooklyn que, numa noite de
sorte, é indicada por seu cafetão para entreter o filho de um oligarca russo na
boate em que trabalha.
Mikey Madison como a dançarina erótica Ani
Pela fluência de Ani no idioma do rapaz Ivan (Mark
Eydelshteyn), a “dançarina erótica” acaba pegando simpatia por ele, o que mais
tarde, após novos encontros — inclusive fora da boate — ocasiona um
improvável romance entre os dois.
Decidida a aceitar a sugestão de Ivan de se casar com ele
para que o russo tenha direito à cidadania norte-americana — e fugir da intransigência
de seus pais milionários —, Anora passa a viver uma história de Cinderela
contemporânea por alguns dias.
Em Las Vegas, o casal resolve consumar o
relacionamento intempestivo e se casa de forma impulsiva. Quando a notícia do
casamento chega à Rússia, o conto de fadas é rapidamente ameaçado: os pais do
jovem partem para Nova York com a irredutível intenção de anular o matrimônio.
Ivan e Ani
Ah, Rodman… o filme é só isso? Uma história de comédia romântica? Que bosta!
Aí é que está a graça do roteiro escrito e dirigido por Sean
Baker (de Tangerine, 2015). Partindo desse plot super simples é que o filme
começa a desenvolver uma história muito dinâmica e extremamente divertida
enquanto os capangas armênios do pai de Ivan começam a se meter no casamento do
casal, além de caçar o jovem russo por Nova York no momento em que ele decide sumir
do mapa simplesmente para não ter que lidar com os mandos e desmandos dos pais
autoritários.
As interações de Anora com os atrapalhados empregados armênios
são hilárias e é impossível ficar indiferente ao humor crescente que o filme
vai nos apresentando a cada nova cena, e a cada nova encrenca a que a moça vai
se metendo para não perder todo o luxo e a riqueza com que ela foi agraciada ao
se casar com o moleque irresponsável.
Aliás, entre as concorrentes de Fernanda Torres ao prêmio de
Melhor Atriz do Oscar, Mikey Madison é uma das mais fortes de todas. Em cena,
além das inúmeras tomadas de strip-tease e de sexo que ela protagoniza diante
das câmeras, a jovem atriz de 25 anos — que despontou no sexto filme da
franquia Pânico como a personagem Amber e que foi uma das hippies malucas do bando de
Charles Mason em Era Uma Vez… Em Hollywood — dá um verdadeiro show de interpretação
nas sequências cômicas, mas principalmente nas dramáticas, o que justificou o
seu prêmio no Bafta de 2025 como Melhor Atriz — desbancando a favorita do
público, Demi Moore de A Substância.
Mikey Madison em "Pânico", "Era Uma Vez... Em Hollywood" e em "Anora"
Anora foi o filme mais divertido entre todos os que assisti
a concorrer ao Oscar desse ano e o único que eu toparia rever futuramente.
O longa arrecadou mais de US$ 20 milhões de bilheteria e, além do prêmio de Melhor Atriz, disputa também o Oscar de Melhor Filme, Melhor
Direção (para Sean Baker), Melhor Roteiro Original, Melhor Ator Coadjuvante
(para Yura Borisov, que interpreta um dos principais capangas do sogro de
Anora) e Melhor Montagem.
O diretor Sean Baker e o ator Yura Borisov
Conclave
“Cardeal Bellini. Quem você indica para o paredão do Vaticano e o porquê
em trinta segundos!”
Uma boa definição para quem ainda não viu Conclave e
pretende assistir ao longa dirigido por Edward Berger (de Nada de Novo no Front de
2022, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional) é que a história é um Big Brother de cardeais que se juntam para eleger o
novo Papa.
O diretor de Conclave, Edward Berger
Aliás, a ironia da coisa em um filme que trata sobre esse
assunto estar em voga exatamente na época em que o Papa vigente, Francisco,
está sofrendo com problemas graves de saúde é uma puta campanha de marketing involuntária
do Vaticano ao longa, não é?
Brincadeiras idiotas à parte, Conclave segue os passos do cardeal
Lawrence (Ralph Fiennes) do momento em que ele é obrigado a reunir um grupo de
sacerdotes para eleger o sucessor do Papa que acabou de falecer até a escolha,
de fato, do novo pontífice.
Ralph Fiennes como o cardeal Lawrence
Cercado por líderes do mundo todo nos corredores do Vaticano
— incluindo um misterioso religioso mexicano —, Lawrence descobre uma trilha de
segredos profundos que podem abalar a própria fundação da Igreja.
Nesse meio-tempo, é claro que rolam várias intrigas entre os
sacerdotes durante a reunião do conclave — que é como é chamada a reunião geral
para eleger um novo Papa —, bem como compra de votos, lavação de roupa suja
sobre o passado de alguns deles e muito, muito golpe baixo.
Pra ser um BBB, só falta mesmo a apresentação do Tadeu Schmidt,
porque o resto está todinho lá!
Apesar de ter feito pouco alarde “no mundo real” quanto ao
plot twist final do longa, Conclave consegue subverter muito bem a expectativa
do público até o desfecho da narrativa, tornando as sequências de contagem de
votos e o suspense envolvendo quem será o novo Papa interessantes — mesmo parecendo
de início que o enredo não vai sair da mesmice de roteiro que outros filmes envolvendo
o Vaticano já construíram em Hollywood.
Carlos Diehz como o cardeal latino Benitez
Além de Fiennes que está cotado ao prêmio de Melhor Ator no
Oscar 2025, o filme ainda conta no elenco com os excelentes Stanley Tucci (como
o cardeal Bellini), John Lithgow (como cardeal Joseph) e Isabella Rossellini
(como a irmã Agnes).
Stanley Tucci, John Lithgow e Isabella Rossellini
Conclave está indicado a oito estatuetas do Oscar, incluindo
Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Isabella Rossellini), Melhor Roteiro
Adaptado, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora, Melhor Figurino e Melhor
Montagem.
Conclave levou o prêmio de Melhor Elenco no SAG Awards desse
ano e isso pode servir de termômetro para quem vai ganhar o Oscar de Melhor
Filme em 2025. Nos últimos anos, o SAG anteviu a maioria dos filmes que
acabaram saindo vitoriosos de dentro do Dolby Theatre em Hollywood.
Conclave premiado pelo Screen Actors Guild
E, cá entre nós, entre todos os que disputam a estatueta
mais cobiçada do Oscar, Conclave é o filme com “mais cara de Oscar” de
todos!
A minha torcida é para Ainda Estou Aqui, por razões óbvias,
mas se for para não ser clubista, quero muito que Anora leve o de Melhor Filme…
até porque a Fernanda Torres vai levar o de Melhor Atriz COM CERTEZA!
Eu falei também sobre “A Substância” (que concorre a Melhor
Filme) e “Divertida Mente 2” (Melhor Animação) no resumão dos filmes de 2024.
Clica no banner aí e seja feliz.