25 de dezembro de 2010

KICK ASS - A análise

A história do filme Kick Ass é curiosa, uma vez que ele começou como uma produção de nível B, sem patrocinadores, sem estúdios interessados em levá-lo aos cinemas, com personagens desconhecidos e pouco atraentes para o grande público. O diretor Matthew Vaughn e Mark Millar, o criador da história original nas HQs, pareciam ser os únicos empolgados com as filmagens, até que o teaser foi apresentado na Comicon de San Diego e a recepção do público fez com que os estúdios se estapeassem para lançar o projeto.
Kick Ass - Quebrando Tudo não foi exatamente um boom nas bilheterias, tendo faturado apenas 95 milhões de dólares em todo o mundo, com um custo de produção de aproximadamente 30 milhões de verdinhas. Perto de mega-sucessos como Homem de Ferro, o herói blindado da Marvel, por exemplo, que rendeu mais de 100 milhões só no primeiro fim de semana de exibição em maio de 2008, Kick Ass teve um faturamento modesto, o que torna até injusta a comparação com outros medalhões da Casa das Ideias.
Assim como o Homem de Ferro, Kick Ass também é da Marvel, embora suas primeiras 8 edições tenham sido lançadas por um selo de títulos independentes chamado Icon, e seu criador se destaca por saber criar polêmicas em volta das revistas que escreve (entre outras coisas ele também escreveu Guerra Civil e Supremos na linha Ultimate).

O enredo tanto do filme quanto da HQ fala sobre a vida de Dave Lizewski, um adolescente comum que não é o gênio da sala, o atleta da sala ou o palhaço da sala. Como ele mesmo se descreve nos primeiros quadros do gibi “assim como outras pessoas da minha idade eu meramente existia” e isso cria uma certa identificação com o público, uma vez que a história se passa no mundo real, onde os super-heróis não existem e muitas pessoas se vêem como perdedoras.

Com os amigos, Dave levanta a questão de por que nunca ninguém tentou ser super-herói na vida real, e a resposta é sempre a mesma: Porque isso é algo impossível. Todos os dias acontecem assaltos nas grandes cidades, injustiças sociais e mesmo agressões sem que ninguém faça nada. Alguns até presenciam algumas dessas infrações, mas nada fazem seja por medo ou por covardia de se envolver. Dave então questiona os amigos de por que isso é impossível. “Colocar uma máscara é impossível?”. Citando Bruce Wayne, Dave levanta a questão de que não é preciso ter superpoderes para combater o mal e sim um pouco de coragem de fazer o que é certo, e é aí que Mark Millar ganha méritos por criar um enredo fantástico no qual acompanhamos o jovem medíocre em sua jornada para se tornar o primeiro herói da vida real e também todas as consequências que tal ato sofreria se fosse em nosso mundo.

Quem leu a HQ e assistiu o filme viu o mesmo personagem em histórias muito diferentes. Ambas são recheadas de violência e situações absurdas, mas a linha que conduz as duas diferentes mídias é distinta.
Nos quadrinhos a riqueza de detalhes é muito maior, embora a história se desenrole de forma mais ágil. As sutilezas do roteiro bem como o desvendar de alguns mistérios se dão de forma adequada, surpreendendo o leitor a cada edição.

No filme, já vemos desde o início todas as portas dos mistérios abertas. Conhecemos o herói, conhecemos os vilões e não há qualquer surpresa com relação a isso. Matthew Vaughn também cria facilitações no roteiro, permitindo assim que a história se torne mais tragável em certos pontos. Damon Macready (Big Daddy) é um ex-policial de verdade e não um colecionador de gibis, Katie Deauxma dá mole para Dave e em certo ponto até namora o protagonista, ele conta pra ela que é o Kick Ass e ela aceita (!), o nome do gangster que serve como o vilão da história é Frank D’Amico e não John Genovese, e o final do filme é feliz para Dave. Para os bons observadores, não é preciso muito esforço para notar que nada disso acontece na HQ.
Já tivemos vários filmes em que nem sempre o mocinho se dá bem no final e decididamente não compreendo em que momento Vaughn decidiu modificar a história para que ela se tornasse mais palatável. A HQ é sim cruel e politicamente incorreta, só que esses detalhes não são maquiados no filme. Teria a história do Paizão sido modificada devido algum pedido pessoal de Nicolas Cage, seu intérprete? O público se identificaria mais com um herói que fica com a mocinha no fim?

Sendo Kick Ass a história de um personagem que vive num mundo real, a decisão mais acertada seria manter essas imperfeições de caráter, uma vez que ninguém é perfeito na realidade igual a super-heróis como Superman, Capitão América e tantos outros. Seja como for, essas alterações nas características básicas dos personagens e o final da história são as grandes diferenças entre a HQ e o filme, o que as tornam únicas.

Kick Ass possui um círculo restrito de personagens que se relacionam ao longo das HQs. Em princípio conhecemos Dave Lizewski, o “Chuta-Rabos” do título, seus dois amigos Marty e Todd, Katie Deauxma, o interesse romântico de Dave e o pai viúvo de Dave, o Sr. Lizewski. Apenas na 3ª edição é que somos apresentados a Genovese e sua gangue e mais tarde à Hit Girl e seu Paizão, personagens que são vistos por Dave como dois super-heróis legítimos.
No filme, já conhecemos Chris D’Amico (Chris Genovese na HQ) logo no início e não é segredo que ele é filho do maior gangster da cidade. Seu plano de se aproximar de Kick Ass para capturar Big Daddy (Paizão) e Hit Girl, que num dado momento fazem uma aliança contra o crime, é feita às claras, assim como a criação de sua identidade secreta, o Red Mist (Névoa Vermelha).
Todos os personagens possuem uma relação simples de entender.

Kick Ass decide combater o crime e fica famoso quando um vídeo seu defendendo um homem de um espancamento cai na Internet.
Big Daddy e Hit Girl também combatem o crime e decidem propor uma aliança (forçada) com Kick Ass ao ver o sucesso que o garoto está fazendo nas redes sociais.
Genovese (D’Amico) tem seus planos no tráfico de drogas atrapalhados pelas ações de Big Daddy e Hit Girl e decide liquidá-los achando que Kick Ass também tem algo a ver com as ações contra seus homens.
Red Mist, o filho de Genovese, inventa uma identidade secreta para si, ganha popularidade na Internet, assim como Kick Ass, se aproxima de Dave sugerindo uma aliança e trai o garoto quando este lhe indica o esconderijo de Bigg Daddy e Hit Girl.
Tudo é muito bem conectado na HQ, e algumas situações são forçadas no filme para torná-lo mais verossímil, como a possível culpa de D’Amico no suicídio da esposa de Big Daddy e mais tarde também na prisão do mesmo, que estaria infiltrado na gangue do traficante para pegá-lo. A belíssima animação que mostra esse passado oculto de Big Daddy e sua filha é mostrada no filme com a arte de John Romita Jr., o mesmo autor dos desenhos da HQ, mas mesmo assim passa bem longe de sua origem real.

Por contar a história de adolescentes que resolvem combater o crime, Kick Ass – Quebrando tudo conta com um elenco bem jovem, e exatamente por isso meio inexperiente na arte de interpretar.

O protagonista da história vivido por Aaron Johnson não tem exatamente o tipo físico do Dave Lizewski da HQ e nem sua cara feiosa (se bem que Romita Jr. desenha todo mundo feioso), e sua atuação é apenas razoável, embora ele se esforce para dar credibilidade ao papel do nerd loser que interpreta.

Mark Strong como Frank D’Amico, o gangster que faz com que Kick Ass pense duas vezes se quer mesmo ser um herói, tem interpretação apenas burocrática, talvez por culpa do roteiro fraco e do personagem canastrão e clichê que lhe foi dado. Ele passa maldade em seus atos, mas por vezes parece mais uma caricatura (sem graça) dos velhos gângsteres do cinema do que um personagem novo e original. Longe de estar questionando a competência do ator, apenas afirmo que nesse papel ele não foi muito feliz, mesmo que tão pouco tenha sido exigido de sua veia artística.

Não tive a oportunidade de mencionar aqui no Blog ainda a cisma que tenho com o senhor Nicolas Cage e sua eterna cara de bunda que ele dá a todos os seus personagens, quase que sem exceção, mas devo dar o braço a torcer dessa vez, porque ele deu vida de forma competente ao Big Daddy.
Em nenhum momento Cage fica com aquele olhar idiota diante da câmera e ele parece até bem sisudo nos diálogos que tem com a pequena Chloe Moretz no filme, além de dar uma entonação mais grave ao personagem, que nas HQs parece do tipo parrudo. Me surpreendi ao ver Cage levando a sério o seu papel (diferente do que fez em Motoqueiro Fantasma) e o Big Daddy foi o mais próximo que ele conseguiu de viver um grande super-herói nas telas, já que ele perdeu o papel de Superman nos cinemas logo que o projeto “viajandão” de Tim Burton para o personagem foi para o vinagre (graças ao bom Deus) e depois dele ter ajudado a afundar aquela porcaria que foi Motoqueiro Fantasma.

Christopher Mintz-Plasse (o McLovin de SuperBad), com aparência bem mais velha do que o adolescente nerd que interpretou em SuperBad, não compromete no papel de Chris D’Amico e seu alter-ego Red Mist. Longe do tom engraçado e maconheiro que o personagem tem na HQ, seu Red Mist é menos verdadeiro e muito mais medroso. Quase não há diferença entre sua personalidade antes de trair Kick Ass e depois, e rola até uma cena de arrependimento quando Red Mist implora que os capangas do pai não machuquem o herói verde e amarelo.
Red Mist é bem mais sádico na HQ, e ele parece se divertir quando vê Kick Ass apanhando pra valer dos homens de Frank D’Amico. Outra amenização desnecessária, já que para o grande público, a luta final entre os dois teria muito mais impacto se Red Mist fosse um traíra de sangue ruim ao em vez de um babacão que se arrepende de seus atos.

Decididamente as melhores cenas do filme são protagonizadas pela pequena e fofíssima Chloe Grace Moretz (atualmente com 13 anos), que dá vida à Hit Girl (Garota Perigo??).
Embalada por músicas que parecem ter sido tiradas de animes japoneses, Chloe se deleita em cena esfaqueando, decapitando, mutilando e alvejando os capangas de D’Amico. Alguns de seus golpes só são possíveis graças ao “arame fu” hoje tão usado em Hollywood, mas em nenhum momento isso diminui o impacto da garota na tela, que protagoniza as melhores cenas de ação do filme todo.
Imagine uma pequena ninja de 11 anos tirada de algum desenho japonês, de peruca lilás e armada até os dentes. Misture-a com a inteligência e as técnicas de combate do Robin e você saberá exatamente o que é a personagem Hit Girl. Por mais que a personagem seja um dos elementos mais absurdos de Kick Ass e que tire um pouco daquele caráter “verossímil” que tanto a HQ quanto o filme desejavam passar – querem que o público engula uma serial-killer de 11 anos que massacra um bando de marmanjos?- a Hit Girl dá o fôlego que a história precisa, uma vez que o personagem título é desprovido de qualquer treinamento físico. No filme também são delas as principais cenas chocantes e eu nunca tinha visto nada tão politicamente incorreto no cinema desde que o leão Alex espanca uma velhinha em Madagascar 2!
Logo em sua apresentação, Chloe leva um tiro no peito de Nicolas Cage. Depois ela insinua que quer um cachorrinho fofinho como presente de aniversário para desagrado do Paizão, para logo em seguida confessar que está zombando e que prefere um canivete suíço!
Ao entrar na casa do traficante Razul (Eddie Lomas na HQ), ela simplesmente empala, mutila e decapita os bandidos, e repete seus atos de crueldade ao invadir o prédio de D’Amico já na sequencia final do filme. Fico imaginando por quantos psicólogos a pequena Chloe precisou passar durante a gravação desse filme, porque o politicamente correto aí passou batido.
Me lembrou um filme tupiniquim que coloca uma arma nas mãos de um menor.

Mas todo mundo sabe que no Brasil isso é normal, né.

Chloe começou a atuar desde pequena , fez aparições na TV, na série The Guardian, no filme para a TV The Family Plan e já no cinema fez o filme The Amityville Horror (2005), no papel de Chelsea Lutz, co-estrelando com Ryan Reynolds e Melissa George. Por este papel, foi indicada para o Young Artist Award. Além desse filme participou de seriados de TV, incluindo dois episódios de Desperate Housewives e do filme Momma's House 2, no papel de Carrie Fuller.

Kick Ass ainda tem como destaque Garrett M. Brown como o Sr. Lizewski (que tem pouco destaque no filme), os amigos de Dave Todd e Marty (vividos respectivamente por Evan Peters e Clarke Duke) e a belíssima Lyndsy Fonseca que vive uma Katie Deauxma mais compreensiva e dócil do que sua contraparte das HQs, uma personagem muito mais escrota e intransigente.


Como já comentei aqui falando de outras adaptações de quadrinhos, é muito difícil exigir fidelidade visual nos trajes usados pelos heróis transpostos para as telas, em especial porque muita coisa dos quadrinhos é impraticável trazida para a vida real.
Absolutamente nenhum uniforme foi trazido fielmente à realidade. Kick Ass, Red Mist, Hit Girl e Big Daddy passaram por adaptações (algumas bem radicais) em seus visuais criados por Mark Millar e John Romita Jr.
Kick Ass ganhou uma boca em seu capuz, enquanto a Hit Girl ganhou uma peruca lisa e lilás no lugar da roxa e ondulada que ela usa na HQ. Quem usaria uma peruca que cai nos olhos durante uma luta??


O uniforme de Red Mist nada tem a ver com o original das HQs, e ele também usa uma peruca arrepiada além de uma máscara estilo Asa Noturna no lugar do capuz que cobre toda sua cabeça (apenas no final da HQ ele adota o cabelo para fora do capuz).

O Big Daddy teve a máscara invertida, uma vez que na HQ ela cobre todo o rosto e deixa os cabelos de fora e no filme cobre toda a cabeça e o rosto deixando o queixo de fora, como o Batman.
Aliás, o uniforme é bem inspirado no Batman de Tim Burton, passando pelo tom preto, cinturão amarelo e um volume na cabeça que se assemelha a uma orelha pontuda.


Se me pedissem para escolher uma entre as duas mídias em que Kick Ass foi representado eu escolheria a HQ, até porque a obra original sempre é melhor que suas adaptações.
Até colocar as mãos na HQ eu não me lembrava de já ter visto um ritmo tão alucinante de violência e palavrões numa história em Quadrinhos e aquilo me surpreendeu de forma positiva, além de ter me cativado. Mark Millar já havia chutado o balde no mundo dos quadrinhos ao escrever a excelente Supremos, que relançava os Vingadores para o mundo Ultimate criado por Joe Quesada. Millar chacoalhou o universo tradicional da Marvel colocando em lados opostos o Homem de Ferro e o Capitão América em Guerra Civil e nos presenteou com um ápice pra lá de chocante o embate entre os dois antigos amigos. (Confesso que lágrimas rolaram de meus olhos na edição 3 de guerra Civil, quando o Homem de Ferro tritura o Capitão).
Millar já havia provado que sabia narrar uma história em quadrinhos como poucos, e Kick Ass foi provavelmente a certificação de que é possível sim colocar um conteúdo atraente numa HQ sem precisar descambar para o ridículo.
Kick Ass tem elementos de humor, sadismo, sexo e de violência que casam bem no roteiro. Nosso mundo tem tudo isso, porque uma HQ que retrata essa realidade não poderia ter?
Ok, colocar uma menina de 11 anos para quebrar as fuças de marmanjos, fazer dela uma mini serial-killer desprovida de emoções e falar que um fanboy que vende HQs raras pelo Ebay teria potencial suficiente para bancar o Frank Castle do mundo real é um pouco forçado, mas a essência da história é mesmo mostrar o que aconteceria com uma pessoa normal que resolvesse combater o crime. Tortura, humilhações, dilacerações e morte era o mínimo que se podia esperar de um enredo assim, e é o que acontece com Dave Lizewski e seus amigos quando eles ousam enfrentar John Genovese e seu bando.

Já comentei aqui o quanto sou fã de John Romita Jr. desde os tempos de Homem Aranha.
Seu traço não é o mais bonito de todos, tem uma infinidade de desenhistas cujos traços me atraem mais do que os de Romita, mas ele alcançou a excelência de seu atual desenho em Kick Ass.

Todos os personagens são feios e quadradões, mas isso não faz a menor diferença quando mergulhamos fundo na narrativa. Romitinha sabe contar uma história visualmente melhor do que ninguém, seus desenhos formam a sequencia necessária para se entender o que está acontecendo, ele utiliza de perspectivas como poucas vezes pude ver nos quadrinhos e as cenas de mortes e dilacerações feitas por ele são impressionantes. Seu talento é indiscutível. A única coisa que podemos questionar em sua arte é seu traço, preferindo esse ou aquele artista (particularmente gosto de desenhistas mais realistas), mas ele não deixa nada a dever em Kick Ass. Vida longa ao mestre.

Kick Ass – Quebrando tudo é um filme divertido que vale a pena ser visto por quem gosta de um bom filme de ação misturado com American Pie. As atuações não são lá grandes coisas, mas o enredo do filme é bem amarrado e não deixa pontas soltas. Não há muito o que se pensar e também não é necessário ter lido a HQ para entender o filme. Embora de forma diferente, tudo é explicado no próprio roteiro e é bem interessante acompanhar a jornada de Dave Lizewski na tentativa de se tornar um herói da vida real e da pequena Hit Girl fatiando capangas com cenas de encher os olhos.
A trilha sonora também é muito boa e incluem hits como “Crazy” de Gnarls Barkley, “Make me Wanna Die” do The Pretty Reckless e “Stand up” do Prodigy.

NOTA: 8

NAMASTE!

Um comentário:

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