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3 de março de 2025

Ainda estou aqui falando dos vencedores do Oscar 2025

Oscar 2025


No último dia 02 de março rolou no Dolby Theatre a 97ª edição do Oscar e no Brasil a festa não podia ser maior. Em pleno Carnaval, o filme "Ainda Estou Aqui" levou a estatueta de Melhor Filme Internacional, desbancando entre outras produções, o “francês” Emilia Pérez.

É clima de Copa do Mundo, amigo! Haaaaja coração!


MELHOR ATOR COADJUVANTE

A noite de premiação começou com Robert Downey Jr. — vencedor do ano passado por seu papel em “Oppenheimer” — anunciando o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Kieran Culkin por sua atuação em “A Verdadeira Dor”.

Oscar 2025
Kieran Culkin premiado por "Real Pain"


O irmão do Macaulay Kulkin já tinha vencido o Globo de Ouro pelo mesmo papel no filme dirigido e atuado por Jesse Eisenberg e repetiu a dose no Oscar com um discurso bastante espirituoso sobre o palco.

Apesar de ser o coadjuvante no filme, Culkin mostra o tempo todo porque tem sido tão premiado ultimamente por suas atuações — ele também levou o Emmy de Melhor Ator em Série Dramática por "Succession". Em “Real Pain” o seu personagem flutua o tempo todo entre o humor rasgado e a melancolia total, e a história dos dois primos — ele e o personagem de Eisenberg — que visitam os campos de concentração nazistas onde os seus avós foram torturados, exige dele uma interpretação mais densa que realmente o gabarita para vencer o Oscar.

Nessa categoria, Kulkin superou Guy Pearce ("O Brutalista"), Edward Norton ("Um Completo Desconhecido"), o competente Yura Borisov (de "Anora") e o mal-humorado Jeremy Strong ("O Aprendiz"), que ficou com uma tremenda cara de cu ao longo de toda a cerimônia!

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Na categoria Melhor Documentário, quem levou o prêmio da noite foi “No Other Land”, filme produzido por um coletivo palestino-israelense que mostra a destruição de Masafer Yatta por soldados israelenses na Cisjordânia ocupada, além da aliança que se desenvolve entre o ativista palestino Basel e o jornalista israelense Yuval.

Oscar 2025
A equipe do filme "Sem Chão"


Ao subir ao palco para receber a estatueta, a equipe do documentário pediu o fim do genocídio do povo palestino, situação trágica que tem ocorrido desde outubro de 2023, quando começaram as tensões entre Israel e o grupo terrorista Hamas. Desde então, mais de 40 mil palestinos já morreram num conflito em que apenas um lado é massacrado às vistas do mundo inteiro, e nada de mais efetivo para botar um ponto final nessa guerra tem sido feito.

Assim como “Ainda Estou Aqui”, que escancara uma realidade cruel vivida no Brasil há vários anos, “No Other Land” também serve como um alerta e um pedido de socorro de um povo que vive com um alvo estampado na testa constantemente, sem que as forças internacionais sequer pensem em ajudar.

"Sem Chão", como foi traduzido por aqui, está em cartaz em alguns cinemas nacionais, sem previsão de chegar aos serviços de streaming.

MELHOR CURTA ANIMADO E MELHOR CURTA DOCUMENTÁRIO

Os prêmios de Melhor Curta Animado e Melhor Curta Documentário foram para “In The Shadow of The Cypress” e “The Only Girl in The Orchestra” respectivamente. A animação de 2023 é dirigida por Shirin Sohani e Hossein Molayemi, e é uma produção iraniana. Já o curta-documentário é uma produção da Netflix que foi dirigida por Molly O’Brien.

MELHOR ANIMAÇÃO

Falando em animação, quem levou o maior prêmio da noite nessa categoria foi o simpático “Flow”, da Letônia. O filme foi todo desenvolvido por meio do Blender e os criadores da produção enfatizaram que o uso da tecnologia de software livre foi essencial para que toda a composição das cenas de aventura do gatinho preto fossem realizadas.

Oscar 2025
"Flow" como Melhor Animação


Flow” desbancou grandes estúdios como a Pixar, que entrou na disputa com seu tocante “Divertida Mente 2” e bateu de frente também com outros filmes mais autorais como “Wallace & Gromit: A Vingança” e o australiano “Memórias de um Caracol”.

Apesar de ter achado a fluência de movimentos do gato e de seus amigos animais — não antropomorfizados, diga-se de passagem — excelentes, a história do gatinho perdido num mundo submerso em água não me tocou tanto quanto “Robô Selvagem” da DreamWorks.  Fazia tempo que eu não me acabava de chorar como aconteceu enquanto eu assistia a essa animação dirigida pelo competente Chris Sanders (de “Lilo & Stitch”), mas a tocante história de uma robô que se afeiçoa a um filhote de ganso me quebrou de uma maneira muito peculiar.

Oscar 2025
O emocionante "Robô Selvagem"


Apesar da rivalidade entre os dois projetos, vale a conferida em ambos. Os filmes funcionam tanto para crianças quanto para adultos, e o que não faltam são mensagens positivas nas duas histórias. “Robô Selvagem” se encontra para alugar na Amazon Prime e "Flow", por enquanto, só está nos cinemas — ou no seu aplicativo de pirataria mais próximo.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE E MELHOR CANÇÃO

Com 13 indicações no total, o francês "Emilia Pérez" chegou ao Oscar como um possível arrasa-quarteirão que iria papar todos os prêmios à vista, tal qual um “Oppenheimer”. 

No entanto, o que vimos na cerimônia de ontem foi a queda da realidade de um filme medíocre, produzido por pessoas medíocres que apostaram alto na questão de gênero para encantar os votantes da Academia, mas cuja campanha negativa facilitada pelas declarações preconceituosas de sua atriz principal acabou fazendo com que a produção naufragasse — pelo menos no tocante a cuestão do Oscar, talkey?

Apesar da nossa torcida contra disso, Zoë Saldaña confirmou o seu favoritismo levando o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel como Rita Mora, a advogada de Emilia Pérez. A atriz de ascendência porto-riquenha enfatizou as suas origens no discurso da vitória e ainda arriscou algumas palavras em espanhol, idioma que ela fala em quase 80% do filme dirigido por Jacques Audiard.

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Zoë Saldaña


Saldaña desbancou as atrizes Ariana Grande (“Wicked”), Felicity Jones (“O Brutalista”), a veterana Isabella Rossellini (“Conclave”) e Monica Barbaro (“Um Completo Desconhecido”), provando após muitos anos de atuação, que era mesmo a sua hora de brilhar — apesar de ela fazer parte do elenco de três das atuais cinco maiores bilheterias do cinema por seus papeis nas franquias Avatar e Vingadores.

"Emília Pérez" também se saiu vitorioso no Oscar de Melhor Canção Original com "El Mal", repetindo o que aconteceu no Golden Globes. A música interpretada em uma parceria entre Zoë e Karla Sofía Gascón, bateu ninguém mais do que sir Elton John, que concorria com "Never Too Late", composta para o documentário homônimo sobre a sua carreira.

Aparentemente, os votantes dessa categoria não conhecem muito de música, não é mesmo?

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Com fortes chances de vencer o maior prêmio da noite, segundo alguns especialistas, “Conclave” saiu do Teatro Dolby com apenas uma estatueta debaixo do braço. O filme que fala sobre a reunião de cardeais para a escolha de um novo Papa ganhou na categoria de Melhor Roteiro Adaptado (de Peter Straughan) e mais nada. A produção disputava oito categorias, entre elas, Melhor Ator (Ralph Fiennes) e Melhor Filme, mas acabou passando quase despercebida na premiação.

MELHOR FILME INTERNACIONAL

Para os brasileiros, o grande momento da noite foi mesmo a inesquecível premiação de Melhor Filme Internacional que consagrou “Ainda Estou Aqui” como o primeiro filme brasileiro a ganhar um Oscar.



Na disputa, além do já citado “Emilia Pérez”, estavam também “A Garota da Agulha” (da Dinamarca), “A Semente do Fruto Sagrado” (do Irã) e novamente “Flow” da Letônia. Eu não me lembro de outra situação em que uma animação ocupou vaga de Melhor Filme Internacional com live-actions, mas confesso que suei frio quando “Flow” apareceu na lista e começou a despontar como favorito nos prêmios de Melhor Animação.

Oscar 2025


Para quem acompanhou a batalha de Walter Salles e de Fernanda Torres nos últimos seis meses para que a história de “Ainda Estou Aqui” fosse vista e reconhecida no circuito de festivais internacionais, a sensação de vitória dentro do peito foi quase tão grande quanto a deles.

Oscar 2025


Os momentos que antecederam a leitura do envelope feita pela atriz Penélope Cruz me causaram uma taquicardia absurda, tudo isso para explodir na catarse em que foi ouvir “I’m Still Here” soando com o sotaque delicioso da espanhola.

Cinema pra caralho


Sobre o palco, no momento do agradecimento, o diretor Walter Salles voltou a lembrar a luta de Eunice Paiva, a personagem central do longa, para o reconhecimento das barbaridades praticadas pela Ditadura Militar no Brasil, no período de 1964 a 1985, e ainda agradeceu:

“Muito obrigado em nome do cinema brasileiro. Depois de uma perda tão grande durante o regime autoritário decidiu não se dobrar e não desistir, esse prêmio vai para ela, Eunice Paiva. Pra Fernanda Torres e Fernanda Montenegro”.

Na internet o frenesi foi gigantesco, e foi muito divertido comemorar feito a um Pentacampeonato de futebol a consagração de um filme que, além de servir como um recorte de um passado ainda muito presente na nossa história, é também muito bem-produzido, muito bem-filmado, muito bem-dirigido e, principalmente, muito bem-atuado por seus protagonistas. 

Oscar 2025


Não tem como não ficar orgulhoso dessa obra e também do prêmio que mostrou não só para o Brasil como também para o mundo que nós “Ainda Estamos Aqui” e lutaremos sempre contra os regimes ditatoriais recorrentes que assombram a nossa história.

MELHOR FIGURINO E MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

O filme “Wicked”, que transporta para as telas o espetáculo homônimo da Broadway e que faz parte do superestimado universo de “O Mágico de Oz”, saiu com dois prêmios, o de Melhor Figurino (para Paul Tazewell) e Melhor Direção de Arte (para Nathan Crowley e Lee Sandales).

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADO

A Substância” que, antes da premiação, tinha sido elevado como o favorito do Oscar, levou apenas o prêmio de Melhor Maquiagem e Penteado, derrotando outras produções como “Nosferatu” e “Wicked” que também usaram e abusaram da maquiagem para compor os seus personagens.

Oscar 2025
Melhor Maquiagem para "A Substância"


MELHORES EFEITOS ESPECIAIS E MELHOR SOM

O espetacular e grandioso “Duna – Parte 2”, que é infinitamente mais empolgante que o primeiro, também recebeu a sua compensação em dois prêmios técnicos, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som

Oscar 2025


O longa dirigido por Dennis Villeneuve, ainda disputava o prêmio mais cobiçado da noite, relacionado entre os dez maiores filmes, mas não teve muita chance contra o papa-Oscar de 2025.

O MELHOR DA NOITE

Então… veio “Anora”, e todos — ou quase todos — se regozijaram!

Nadando contra a maré de cinéfilos que via o longa de Sean Baker apenas como “mais uma produção misógina e superficial de Hollywood”, eu escrevi aqui antes das premiações que “Anora” era sim um dos meus favoritos entre os dez mais e que o filme, entre todos os que eu acompanhei para chegar inteirado no Oscar, foi o único que me despertou um real interesse e que eu assistiria de novo sem qualquer obrigação de “ver só por causa do Oscar”.

Oscar 2025
Mikey Madison como "Anora"


As premiações do longa começaram com a estatueta de Melhor Roteiro Original, assinado pelo próprio Sean Baker que se baseou em uma história real entre um amigo seu e uma stripper que foi sequestrada na Europa.

Logo depois, ganhou por Melhor Montagem que novamente levou Sean Baker ao palco para recebê-lo, uma vez que o diretor de 54 anos também foi responsável pela edição do longa. Aliás, nessa parte, Baker fez um comentário espirituoso sobre “ter salvado o filme na edição” e que se não fosse por ele “o diretor do filme nunca mais trabalharia em Hollywood”.

Ironicamente, ou não, Baker também venceu na categoria Melhor Direção, batendo os tarimbados James Mangold (de “Logan” e que concorreu ao Oscar por “Um Completo Desconhecido”) e Brady Corbet (de “O Brutalista”). Baker também superou a única diretora entre os finalistas, Coralie Fargeat, de “A Substância”, e para delírio geral da nação, bateu também o arrogante Jacques Audiard de “Emilia Pérez”.

Oscar 2025
Sean Baker e seus quatro Oscars


Até aí, tudo corria bem, uma vez que “Anora” merecia mesmo as premiações que disputou não só pela divertidíssima história tragicômica que proporcionou à audiência, mas também para enaltecer o trabalho triplo que Baker teve em escrever, filmar e editar o longa sozinho. Parecia de bom tamanho o que o cara já havia ganhado até ali, mas então, vieram as premiações mais surpreendentes da noite. 

Oscar 2025


Mikey Madison, que deu vida a dançarina erótica do título, venceu a categoria de Melhor Atriz, derrotando não só a favorita da noite, Demi Moore — que ganhou o Globo de Ouro por sua atuação em "A Substância" e que lhe rendeu um dos discursos mais inflamados antietarismo do ano —, como também derrotou a nossa Fernanda Torres, que era vista como a melhor entre as concorrentes depois de Moore.

Oscar 2025
Fernanda Torres e Demi Moore


Mikey é indiscutivelmente uma boa atriz que, no futuro, com certeza vai despontar como uma das melhores da sua geração, mas a meu ver — e de todo o Brasil! — premiá-la nessa noite foi um erro gravíssimo, em especial por tudo que o papel de Elisabeth Sparkle representou na carreira de Demi Moore.

Oscar 2025
Moore como Elisabeth Sparkle em "A Substância"


Premiar Madison — que só tem 25 anos! — enquanto a moça disputava com Moore que estava ali por interpretar uma personagem que sofreu de etarismo e que justamente por isso tomou a substância do título do filme para rejuvenescer e voltar às glórias do passado, foi no mínimo irônico por parte da Academia Cinematográfica. Para não dizer grosseiro.

Oscar 2025


O Oscar de Melhor Atriz foi praticamente uma assinatura e um carimbo na testa de Moore que "Sim. Você está velha mesmo e nós vamos premiar uma atriz novinha no seu lugar para colocá-la sob os holofotes que já foram seus!”.

E cá entre nós, com todo o respeito a Demi Moore e a Mikey Madison, mas a Fernanda Torres comeu as duas com farinha em matéria de interpretação em “Ainda Estou Aqui”. Nem tem o que dizer!

Coroando ainda mais as polêmicas da noite, “Anora” superou “Conclave”, “O Brutalista”, “A Substância” e o próprio “Ainda Estou Aqui” em Melhor Filme, e saiu consagrado do Dolby Theatre com nada menos do que CINCO estatuetas das seis que disputou.

Eu não vi “O Brutalista” com as suas infindáveis três horas e quarenta minutos de projeção, mas apenas analisando superficialmente as críticas ao looooonga, era bem fácil acreditar que a história que premiou Adrien Brody como Melhor Ator tinha muito mais conteúdo a apresentar do que “Anora”. Sem falar que “Conclave” era um filme muito mais com “cara de Oscar” do que a produção criada por Sean Baker.

Oscar 2025
Adrien Brody como Melhor Ator por "O Brutalista"


Não posso negar que eu gostei muito de “Anora” e que certamente vou reassisti-lo no futuro assim que surgir em algum streaming, mas que essa premiação de “Melhor Filme” e de “Melhor Atriz” foi bastante exagerada, principalmente se levarmos em consideração que o longa já tinha sido devidamente premiado na noite, ah, isso foi!

P.S. – O prêmio de Melhor Curta-Metragem saiu para o ÚNICO filme que tive a oportunidade de assistir esse ano. “I’m Not A Robot” é um interessantíssimo curta sobre uma mulher que falha incansavelmente em provar que não é um robô para um teste de captcha de internet, o que coloca em xeque a sua própria percepção de humanidade. Aproveita que o filme está disponível no Youtube e pode ser visto agorinha, agorinha!


P.S. 2 – E o vácuo que o Walter Salles, não-intencionalmente (pelo menos eu acho!), deixou o coitado do Edward Norton na hora de receber o prêmio de Melhor Filme Internacional, hein? Eu não vi na hora, mas quando reprisou o momento na Globo, deu pra ver direitinho a cara de tacho do ator, que só pôde mesmo ser consolado por nossa Fernandinha Pikachu logo em seguida.

Oscar 2025

P.S. 3 - E o que foi o discurso interminável do "Pianista" Adrien Brody na hora de receber o seu Oscar de Melhor Ator, o segundo da sua carreira? O John Lithgow não gostou nada nada dessa demora toda!



Eu falei dos vencedores do Oscar desse ano "Anora" e "Ainda Estou Aqui" recentemente no Blog do Rodman. Para acompanhar a resenha sobre "Conclave" e "Emilia Pérez" clica no banner aí embaixo. 

Anora e Emilia Pérez no Conclave


NAMASTÊ!

26 de fevereiro de 2025

Emilia Pérez e Anora no Conclave


Combo Breaker Oscar 2025


Chegou aquela época do ano em que a gente deixa um pouco de lado os filmes de bonecos fazendo “piw piw” e assume a nossa persona de Rubens Ewald Filho para falar um pouco sobre FILMES QUE PRESTAM de verdade.

No Combo Breaker de hoje, vou destacar Emilia Pérez, Anora e Conclave, todos eles disputando com Ainda Estou Aqui o prêmio máximo do cinema no Oscar 2025.

Sigam-me os bons!

Emilia Pérez

Emilia Pérez Combo Breaker Oscar


Dirigido pelo já polêmico Jacques Audiard (“Ferrugem e Osso”, de 2012) Emilia Pérez conta em forma de musical a história do chefe de cartel de drogas mexicano, Juan Manitas (Karla Sofía Gascón) que decide contratar uma advogada em evidência na mídia para que ela possa ajudá-lo a fazer a sua transição de gênero em sigilo. "Matando” assim a sua persona masculina para sempre.

Emilia Pérez
Jacques Audiard e o elenco de Emilia Pérez


No enredo, a advogada Rita Mora (Zoë Saldaña) acabou de ganhar uma causa onde conseguiu safar um criminoso da prisão quando ela é abordada por Manitas, que lhe oferece uma caralhada de dinheiro em troca dos seus serviços.

Em seu primeiro encontro para tratar sobre negócios, Rita fica cara a cara com o narcotraficante em seu esconderijo, e se sente tentada a ajudá-lo com o seu problema de falta de identificação de gênero, porque, afinal, ela é uma fodida que precisa muito da grana.

Emilia Pérez Combo Breaker Oscar
Karla Sofía Gascón como "Manitas" e Zoë Saldaña


Nesse encontro, Rita também conhece a esposa de Manitas, Jessi (Selena Gomez), além dos dois filhos do casal, e isso faz com que ela repense momentaneamente em aceitar ou não a proposta do traficante. 

Emilia Pérez Combo Breaker Oscar
Selena Gomez e sua fluência ZERO em espanhol


Embora isso não fique muito claro ao espectador num primeiro momento, Manitas não pretende voltar a ver a sua família após a sua redesignação sexual, dando também um “migué” em seus comandados e na sua vida criminosa. É por essa razão que Rita chega a pensar em desistir de ajudá-lo.

Por fim, ela aceita e foda-se! “Vou ficar milionária e a família do meu cliente que se lasque!

Logo após Rita concordar em conhecer algumas das clínicas que façam a cirurgia de transgenitalização de maneira discreta, vem uma das cenas mais constrangedoras que eu já assisti na minha vida. O momento em que a advogada visita uma clínica na Tailândia e que rola o musical que virou meme na internet de tão absurda!

Emilia Pérez Combo Breaker Oscar


“Homem para mulher ou mulher para homem?”

“Homem para mulher”

“Então, pênis para vaginaaaa”

É sério. Fiquei imaginando alguém que passou por uma transgenitalização de verdade assistindo a essa sequência vergonhosa que trata com humor escrachado um assunto tão sério! 

E tudo isso com musiquinha e dancinha… como se o filme fosse editado por um adolescente no TikTok!

O filme em si tem muitos momentos embaraçosos e a listagem parece infindável quando paramos para pensar um segundo sobre o que estamos assistindo na tela. Para começar, a maneira estereotipada com que o diretor Jacques Audiard enxerga o México e a sua cultura. O francês chegou a visitar o país antes das filmagens, mas admitiu que a visão que ele tinha do México “não condizia com a realidade que ele encontrou lá” ao visitá-lo.

No final, ele mandou um foda-se ao que os mexicanos poderiam pensar a esse respeito e decidiu continuar até o fim com a sua representação preconceituosa sobre o que ele pensava ser o México — um lugar onde a criminalidade impera, com mariachis cantando no meio da rua, onde se faz pouco caso quanto aos desaparecidos mexicanos mortos pelo narcotráfico e onde as cidades têm um aspecto de mundo pós-apocalíptico de tão sujas e destruídas.

É como se um norte-americano tentasse fazer um episódio dos Simpsons sobre o Brasil sem nunca ter visitado o país e colocasse no desenho todos os seus preconceitos e estereótipos representados graficamente na tela, com macacos espalhados pela cidade, mulheres nuas andando nas ruas sacudindo os peitos e selva onde deveria haver prédios e asfalto.

Emilia Pérez Combo Breaker Oscar


Já pensou se isso tivesse acontecido???

Em outra de suas falas polêmicas, Audiard ainda relacionou o idioma espanhol — falado em quase 80% do seu filme — com pobreza e depois pediu desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas de alguma forma pelo seu filme.

Emilia Pérez Combo Breaker Oscar
Declarações polêmicas de Jacques Audiard


É o famoso "foi mal, eu tava doidão"!

Para jogar de vez uma pá de merda sobre o filme, a própria atriz que interpreta a personagem título do filme acabou sendo desmascarada como sendo uma bela de uma racista ainda durante a campanha de premiações do longa. Em postagens antigas, a espanhola Karla Sofía Gascón destilou o seu veneno nas redes sociais contra negros, muçulmanos e outras minorias, esquecendo completamente que ela também faz parte de uma minoria, a das pessoas trans.

Emilia Pérez Combo Breaker Oscar
"... a sua religião [Islã] é incompatível com os valores ocidentais."


Em tempo, Emilia Pérez tem VARRIDO as premiações a que tem sido indicado desde o ano passado, e entre esses prêmios, levou, inclusive o Golden Globe de Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Atriz Coadjuvante (para Zoë Saldaña), Melhor Filme em Língua Não-Inglesa e Melhor Canção Original com “El Mal” na interpretação das próprias Zoë Saldaña e Karla Sofía Gascón.

Emilia Pérez concorre a 13 estatuetas do Oscar nesse ano e mesmo com o escândalo das declarações infelizes de Gascón e do show de estereótipos criado pelo diretor francês, o filme tem fortes chances de garantir pelo menos uma dessas estátuas, batendo de frente com “Ainda Estou Aquiem todas as categorias que o brasileiro também disputa.

Na internet, nem os próprios mexicanos “representados” no cinema pelo filme "tankaram" essa produção, e até a comunidade LGBT pareceu não ter ficado muito satisfeita com a maneira no mínimo desrespeitosa com que foi mostrada em tela.

Mas, sabe quem adorou o filme e que doido para premiar Emilia Pérez por “dar visibilidade à causa trans”? Os velhos da academia de cinema estadunidense que, na realidade, tão pouco se fodendo tanto para as pessoas trans quanto para os mexicanos! 

Anora

Anora Combo Breaker Oscar


Tirando Emilia Pérez, que já assisti tendo alguma noção do que se tratava a história do filme, esse ano eu tentei ver as produções que disputam o Oscar de Melhor Filme antes de me inteirar sobre as suas sinopses, ou mesmo dar uma conferida nos trailers.

A tragicomédia Anora foi um desses casos que assisti “no pelo”. Até antes de começar a projeção, eu não fazia a mais puta ideia do que se tratava o filme, mas acabei me surpreendendo muito positivamente com a produção que levou a Palma de Ouro em Cannes em 2024 — um dos prêmios mais prestigiados do cinema.

Na história, Ani — ou Anora, como ela realmente se chama — vivida pela atriz Mikey Madison, é uma jovem stripper do Brooklyn que, numa noite de sorte, é indicada por seu cafetão para entreter o filho de um oligarca russo na boate em que trabalha.

Anora Combo Breaker Oscar
Mikey Madison como a dançarina erótica Ani


Pela fluência de Ani no idioma do rapaz Ivan (Mark Eydelshteyn), a “dançarina erótica” acaba pegando simpatia por ele, o que mais tarde, após novos encontros — inclusive fora da boate — ocasiona um improvável romance entre os dois.

Anora Combo Breaker Oscar


Decidida a aceitar a sugestão de Ivan de se casar com ele para que o russo tenha direito à cidadania norte-americana — e fugir da intransigência de seus pais milionários —, Anora passa a viver uma história de Cinderela contemporânea por alguns dias. 

Anora


Em Las Vegas, o casal resolve consumar o relacionamento intempestivo e se casa de forma impulsiva. Quando a notícia do casamento chega à Rússia, o conto de fadas é rapidamente ameaçado: os pais do jovem partem para Nova York com a irredutível intenção de anular o matrimônio.

Anora Combo Breaker Oscar
Ivan e Ani


Ah, Rodman… o filme é só isso? Uma história de comédia romântica? Que bosta!

Aí é que está a graça do roteiro escrito e dirigido por Sean Baker (de Tangerine, 2015). Partindo desse plot super simples é que o filme começa a desenvolver uma história muito dinâmica e extremamente divertida enquanto os capangas armênios do pai de Ivan começam a se meter no casamento do casal, além de caçar o jovem russo por Nova York no momento em que ele decide sumir do mapa simplesmente para não ter que lidar com os mandos e desmandos dos pais autoritários.

Anora Combo Breaker Oscar


As interações de Anora com os atrapalhados empregados armênios são hilárias e é impossível ficar indiferente ao humor crescente que o filme vai nos apresentando a cada nova cena, e a cada nova encrenca a que a moça vai se metendo para não perder todo o luxo e a riqueza com que ela foi agraciada ao se casar com o moleque irresponsável.

Anora Combo Breaker Oscar


Aliás, entre as concorrentes de Fernanda Torres ao prêmio de Melhor Atriz do Oscar, Mikey Madison é uma das mais fortes de todas. Em cena, além das inúmeras tomadas de strip-tease e de sexo que ela protagoniza diante das câmeras, a jovem atriz de 25 anos — que despontou no sexto filme da franquia Pânico como a personagem Amber e que foi uma das hippies malucas do bando de Charles Mason em Era Uma Vez… Em Hollywood — dá um verdadeiro show de interpretação nas sequências cômicas, mas principalmente nas dramáticas, o que justificou o seu prêmio no Bafta de 2025 como Melhor Atriz — desbancando a favorita do público, Demi Moore de A Substância.

Anora Combo Breaker Oscar
Mikey Madison em "Pânico", "Era Uma Vez... Em Hollywood" e em "Anora"


Anora foi o filme mais divertido entre todos os que assisti a concorrer ao Oscar desse ano e o único que eu toparia rever futuramente.

Anora


O longa arrecadou mais de US$ 20 milhões de bilheteria e, além do prêmio de Melhor Atriz, disputa também o Oscar de Melhor Filme, Melhor Direção (para Sean Baker), Melhor Roteiro Original, Melhor Ator Coadjuvante (para Yura Borisov, que interpreta um dos principais capangas do sogro de Anora) e Melhor Montagem.

Anora Combo Breaker Oscar
O diretor Sean Baker e o ator Yura Borisov


Conclave

Conclave Combo Breaker Oscar


“Cardeal Bellini. Quem você indica para o paredão do Vaticano e o porquê em trinta segundos!”

Uma boa definição para quem ainda não viu Conclave e pretende assistir ao longa dirigido por Edward Berger (de Nada de Novo no Front de 2022, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional) é que a história é um Big Brother de cardeais que se juntam para eleger o novo Papa.

Conclave Combo Breaker Oscar
O diretor de Conclave, Edward Berger


Aliás, a ironia da coisa em um filme que trata sobre esse assunto estar em voga exatamente na época em que o Papa vigente, Francisco, está sofrendo com problemas graves de saúde é uma puta campanha de marketing involuntária do Vaticano ao longa, não é?

Brincadeiras idiotas à parte, Conclave segue os passos do cardeal Lawrence (Ralph Fiennes) do momento em que ele é obrigado a reunir um grupo de sacerdotes para eleger o sucessor do Papa que acabou de falecer até a escolha, de fato, do novo pontífice.

Conclave Combo Breaker Oscar
Ralph Fiennes como o cardeal Lawrence


Cercado por líderes do mundo todo nos corredores do Vaticano — incluindo um misterioso religioso mexicano —, Lawrence descobre uma trilha de segredos profundos que podem abalar a própria fundação da Igreja.

Nesse meio-tempo, é claro que rolam várias intrigas entre os sacerdotes durante a reunião do conclave — que é como é chamada a reunião geral para eleger um novo Papa —, bem como compra de votos, lavação de roupa suja sobre o passado de alguns deles e muito, muito golpe baixo.

Conclave Combo Breaker Oscar


Pra ser um BBB, só falta mesmo a apresentação do Tadeu Schmidt, porque o resto está todinho lá!

Apesar de ter feito pouco alarde “no mundo real” quanto ao plot twist final do longa, Conclave consegue subverter muito bem a expectativa do público até o desfecho da narrativa, tornando as sequências de contagem de votos e o suspense envolvendo quem será o novo Papa interessantes — mesmo parecendo de início que o enredo não vai sair da mesmice de roteiro que outros filmes envolvendo o Vaticano já construíram em Hollywood.

Conclave Combo Breaker Oscar
Carlos Diehz como o cardeal latino Benitez


Além de Fiennes que está cotado ao prêmio de Melhor Ator no Oscar 2025, o filme ainda conta no elenco com os excelentes Stanley Tucci (como o cardeal Bellini), John Lithgow (como cardeal Joseph) e Isabella Rossellini (como a irmã Agnes).  

Conclave Combo Breaker Oscar
Stanley Tucci, John Lithgow e Isabella Rossellini


Conclave está indicado a oito estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Isabella Rossellini), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora, Melhor Figurino e Melhor Montagem.

Conclave levou o prêmio de Melhor Elenco no SAG Awards desse ano e isso pode servir de termômetro para quem vai ganhar o Oscar de Melhor Filme em 2025. Nos últimos anos, o SAG anteviu a maioria dos filmes que acabaram saindo vitoriosos de dentro do Dolby Theatre em Hollywood.

Conclave
Conclave premiado pelo Screen Actors Guild


E, cá entre nós, entre todos os que disputam a estatueta mais cobiçada do Oscar, Conclave é o filme com “mais cara de Oscar” de todos!

A minha torcida é para Ainda Estou Aqui, por razões óbvias, mas se for para não ser clubista, quero muito que Anora leve o de Melhor Filme… até porque a Fernanda Torres vai levar o de Melhor Atriz COM CERTEZA!

Fernanda Torres totalmente oscarizada


Eu falei também sobre “A Substância” (que concorre a Melhor Filme) e “Divertida Mente 2” (Melhor Animação) no resumão dos filmes de 2024. Clica no banner aí e seja feliz.



NAMASTÊ!

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