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3 de março de 2025

Ainda estou aqui falando dos vencedores do Oscar 2025

Oscar 2025


No último dia 02 de março rolou no Dolby Theatre a 97ª edição do Oscar e no Brasil a festa não podia ser maior. Em pleno Carnaval, o filme "Ainda Estou Aqui" levou a estatueta de Melhor Filme Internacional, desbancando entre outras produções, o “francês” Emilia Pérez.

É clima de Copa do Mundo, amigo! Haaaaja coração!


MELHOR ATOR COADJUVANTE

A noite de premiação começou com Robert Downey Jr. — vencedor do ano passado por seu papel em “Oppenheimer” — anunciando o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Kieran Culkin por sua atuação em “A Verdadeira Dor”.

Oscar 2025
Kieran Culkin premiado por "Real Pain"


O irmão do Macaulay Kulkin já tinha vencido o Globo de Ouro pelo mesmo papel no filme dirigido e atuado por Jesse Eisenberg e repetiu a dose no Oscar com um discurso bastante espirituoso sobre o palco.

Apesar de ser o coadjuvante no filme, Culkin mostra o tempo todo porque tem sido tão premiado ultimamente por suas atuações — ele também levou o Emmy de Melhor Ator em Série Dramática por "Succession". Em “Real Pain” o seu personagem flutua o tempo todo entre o humor rasgado e a melancolia total, e a história dos dois primos — ele e o personagem de Eisenberg — que visitam os campos de concentração nazistas onde os seus avós foram torturados, exige dele uma interpretação mais densa que realmente o gabarita para vencer o Oscar.

Nessa categoria, Kulkin superou Guy Pearce ("O Brutalista"), Edward Norton ("Um Completo Desconhecido"), o competente Yura Borisov (de "Anora") e o mal-humorado Jeremy Strong ("O Aprendiz"), que ficou com uma tremenda cara de cu ao longo de toda a cerimônia!

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Na categoria Melhor Documentário, quem levou o prêmio da noite foi “No Other Land”, filme produzido por um coletivo palestino-israelense que mostra a destruição de Masafer Yatta por soldados israelenses na Cisjordânia ocupada, além da aliança que se desenvolve entre o ativista palestino Basel e o jornalista israelense Yuval.

Oscar 2025
A equipe do filme "Sem Chão"


Ao subir ao palco para receber a estatueta, a equipe do documentário pediu o fim do genocídio do povo palestino, situação trágica que tem ocorrido desde outubro de 2023, quando começaram as tensões entre Israel e o grupo terrorista Hamas. Desde então, mais de 40 mil palestinos já morreram num conflito em que apenas um lado é massacrado às vistas do mundo inteiro, e nada de mais efetivo para botar um ponto final nessa guerra tem sido feito.

Assim como “Ainda Estou Aqui”, que escancara uma realidade cruel vivida no Brasil há vários anos, “No Other Land” também serve como um alerta e um pedido de socorro de um povo que vive com um alvo estampado na testa constantemente, sem que as forças internacionais sequer pensem em ajudar.

"Sem Chão", como foi traduzido por aqui, está em cartaz em alguns cinemas nacionais, sem previsão de chegar aos serviços de streaming.

MELHOR CURTA ANIMADO E MELHOR CURTA DOCUMENTÁRIO

Os prêmios de Melhor Curta Animado e Melhor Curta Documentário foram para “In The Shadow of The Cypress” e “The Only Girl in The Orchestra” respectivamente. A animação de 2023 é dirigida por Shirin Sohani e Hossein Molayemi, e é uma produção iraniana. Já o curta-documentário é uma produção da Netflix que foi dirigida por Molly O’Brien.

MELHOR ANIMAÇÃO

Falando em animação, quem levou o maior prêmio da noite nessa categoria foi o simpático “Flow”, da Letônia. O filme foi todo desenvolvido por meio do Blender e os criadores da produção enfatizaram que o uso da tecnologia de software livre foi essencial para que toda a composição das cenas de aventura do gatinho preto fossem realizadas.

Oscar 2025
"Flow" como Melhor Animação


Flow” desbancou grandes estúdios como a Pixar, que entrou na disputa com seu tocante “Divertida Mente 2” e bateu de frente também com outros filmes mais autorais como “Wallace & Gromit: A Vingança” e o australiano “Memórias de um Caracol”.

Apesar de ter achado a fluência de movimentos do gato e de seus amigos animais — não antropomorfizados, diga-se de passagem — excelentes, a história do gatinho perdido num mundo submerso em água não me tocou tanto quanto “Robô Selvagem” da DreamWorks.  Fazia tempo que eu não me acabava de chorar como aconteceu enquanto eu assistia a essa animação dirigida pelo competente Chris Sanders (de “Lilo & Stitch”), mas a tocante história de uma robô que se afeiçoa a um filhote de ganso me quebrou de uma maneira muito peculiar.

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O emocionante "Robô Selvagem"


Apesar da rivalidade entre os dois projetos, vale a conferida em ambos. Os filmes funcionam tanto para crianças quanto para adultos, e o que não faltam são mensagens positivas nas duas histórias. “Robô Selvagem” se encontra para alugar na Amazon Prime e "Flow", por enquanto, só está nos cinemas — ou no seu aplicativo de pirataria mais próximo.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE E MELHOR CANÇÃO

Com 13 indicações no total, o francês "Emilia Pérez" chegou ao Oscar como um possível arrasa-quarteirão que iria papar todos os prêmios à vista, tal qual um “Oppenheimer”. 

No entanto, o que vimos na cerimônia de ontem foi a queda da realidade de um filme medíocre, produzido por pessoas medíocres que apostaram alto na questão de gênero para encantar os votantes da Academia, mas cuja campanha negativa facilitada pelas declarações preconceituosas de sua atriz principal acabou fazendo com que a produção naufragasse — pelo menos no tocante a cuestão do Oscar, talkey?

Apesar da nossa torcida contra disso, Zoë Saldaña confirmou o seu favoritismo levando o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel como Rita Mora, a advogada de Emilia Pérez. A atriz de ascendência porto-riquenha enfatizou as suas origens no discurso da vitória e ainda arriscou algumas palavras em espanhol, idioma que ela fala em quase 80% do filme dirigido por Jacques Audiard.

Oscar 2025
Zoë Saldaña


Saldaña desbancou as atrizes Ariana Grande (“Wicked”), Felicity Jones (“O Brutalista”), a veterana Isabella Rossellini (“Conclave”) e Monica Barbaro (“Um Completo Desconhecido”), provando após muitos anos de atuação, que era mesmo a sua hora de brilhar — apesar de ela fazer parte do elenco de três das atuais cinco maiores bilheterias do cinema por seus papeis nas franquias Avatar e Vingadores.

"Emília Pérez" também se saiu vitorioso no Oscar de Melhor Canção Original com "El Mal", repetindo o que aconteceu no Golden Globes. A música interpretada em uma parceria entre Zoë e Karla Sofía Gascón, bateu ninguém mais do que sir Elton John, que concorria com "Never Too Late", composta para o documentário homônimo sobre a sua carreira.

Aparentemente, os votantes dessa categoria não conhecem muito de música, não é mesmo?

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Com fortes chances de vencer o maior prêmio da noite, segundo alguns especialistas, “Conclave” saiu do Teatro Dolby com apenas uma estatueta debaixo do braço. O filme que fala sobre a reunião de cardeais para a escolha de um novo Papa ganhou na categoria de Melhor Roteiro Adaptado (de Peter Straughan) e mais nada. A produção disputava oito categorias, entre elas, Melhor Ator (Ralph Fiennes) e Melhor Filme, mas acabou passando quase despercebida na premiação.

MELHOR FILME INTERNACIONAL

Para os brasileiros, o grande momento da noite foi mesmo a inesquecível premiação de Melhor Filme Internacional que consagrou “Ainda Estou Aqui” como o primeiro filme brasileiro a ganhar um Oscar.



Na disputa, além do já citado “Emilia Pérez”, estavam também “A Garota da Agulha” (da Dinamarca), “A Semente do Fruto Sagrado” (do Irã) e novamente “Flow” da Letônia. Eu não me lembro de outra situação em que uma animação ocupou vaga de Melhor Filme Internacional com live-actions, mas confesso que suei frio quando “Flow” apareceu na lista e começou a despontar como favorito nos prêmios de Melhor Animação.

Oscar 2025


Para quem acompanhou a batalha de Walter Salles e de Fernanda Torres nos últimos seis meses para que a história de “Ainda Estou Aqui” fosse vista e reconhecida no circuito de festivais internacionais, a sensação de vitória dentro do peito foi quase tão grande quanto a deles.

Oscar 2025


Os momentos que antecederam a leitura do envelope feita pela atriz Penélope Cruz me causaram uma taquicardia absurda, tudo isso para explodir na catarse em que foi ouvir “I’m Still Here” soando com o sotaque delicioso da espanhola.

Cinema pra caralho


Sobre o palco, no momento do agradecimento, o diretor Walter Salles voltou a lembrar a luta de Eunice Paiva, a personagem central do longa, para o reconhecimento das barbaridades praticadas pela Ditadura Militar no Brasil, no período de 1964 a 1985, e ainda agradeceu:

“Muito obrigado em nome do cinema brasileiro. Depois de uma perda tão grande durante o regime autoritário decidiu não se dobrar e não desistir, esse prêmio vai para ela, Eunice Paiva. Pra Fernanda Torres e Fernanda Montenegro”.

Na internet o frenesi foi gigantesco, e foi muito divertido comemorar feito a um Pentacampeonato de futebol a consagração de um filme que, além de servir como um recorte de um passado ainda muito presente na nossa história, é também muito bem-produzido, muito bem-filmado, muito bem-dirigido e, principalmente, muito bem-atuado por seus protagonistas. 

Oscar 2025


Não tem como não ficar orgulhoso dessa obra e também do prêmio que mostrou não só para o Brasil como também para o mundo que nós “Ainda Estamos Aqui” e lutaremos sempre contra os regimes ditatoriais recorrentes que assombram a nossa história.

MELHOR FIGURINO E MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

O filme “Wicked”, que transporta para as telas o espetáculo homônimo da Broadway e que faz parte do superestimado universo de “O Mágico de Oz”, saiu com dois prêmios, o de Melhor Figurino (para Paul Tazewell) e Melhor Direção de Arte (para Nathan Crowley e Lee Sandales).

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADO

A Substância” que, antes da premiação, tinha sido elevado como o favorito do Oscar, levou apenas o prêmio de Melhor Maquiagem e Penteado, derrotando outras produções como “Nosferatu” e “Wicked” que também usaram e abusaram da maquiagem para compor os seus personagens.

Oscar 2025
Melhor Maquiagem para "A Substância"


MELHORES EFEITOS ESPECIAIS E MELHOR SOM

O espetacular e grandioso “Duna – Parte 2”, que é infinitamente mais empolgante que o primeiro, também recebeu a sua compensação em dois prêmios técnicos, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som

Oscar 2025


O longa dirigido por Dennis Villeneuve, ainda disputava o prêmio mais cobiçado da noite, relacionado entre os dez maiores filmes, mas não teve muita chance contra o papa-Oscar de 2025.

O MELHOR DA NOITE

Então… veio “Anora”, e todos — ou quase todos — se regozijaram!

Nadando contra a maré de cinéfilos que via o longa de Sean Baker apenas como “mais uma produção misógina e superficial de Hollywood”, eu escrevi aqui antes das premiações que “Anora” era sim um dos meus favoritos entre os dez mais e que o filme, entre todos os que eu acompanhei para chegar inteirado no Oscar, foi o único que me despertou um real interesse e que eu assistiria de novo sem qualquer obrigação de “ver só por causa do Oscar”.

Oscar 2025
Mikey Madison como "Anora"


As premiações do longa começaram com a estatueta de Melhor Roteiro Original, assinado pelo próprio Sean Baker que se baseou em uma história real entre um amigo seu e uma stripper que foi sequestrada na Europa.

Logo depois, ganhou por Melhor Montagem que novamente levou Sean Baker ao palco para recebê-lo, uma vez que o diretor de 54 anos também foi responsável pela edição do longa. Aliás, nessa parte, Baker fez um comentário espirituoso sobre “ter salvado o filme na edição” e que se não fosse por ele “o diretor do filme nunca mais trabalharia em Hollywood”.

Ironicamente, ou não, Baker também venceu na categoria Melhor Direção, batendo os tarimbados James Mangold (de “Logan” e que concorreu ao Oscar por “Um Completo Desconhecido”) e Brady Corbet (de “O Brutalista”). Baker também superou a única diretora entre os finalistas, Coralie Fargeat, de “A Substância”, e para delírio geral da nação, bateu também o arrogante Jacques Audiard de “Emilia Pérez”.

Oscar 2025
Sean Baker e seus quatro Oscars


Até aí, tudo corria bem, uma vez que “Anora” merecia mesmo as premiações que disputou não só pela divertidíssima história tragicômica que proporcionou à audiência, mas também para enaltecer o trabalho triplo que Baker teve em escrever, filmar e editar o longa sozinho. Parecia de bom tamanho o que o cara já havia ganhado até ali, mas então, vieram as premiações mais surpreendentes da noite. 

Oscar 2025


Mikey Madison, que deu vida a dançarina erótica do título, venceu a categoria de Melhor Atriz, derrotando não só a favorita da noite, Demi Moore — que ganhou o Globo de Ouro por sua atuação em "A Substância" e que lhe rendeu um dos discursos mais inflamados antietarismo do ano —, como também derrotou a nossa Fernanda Torres, que era vista como a melhor entre as concorrentes depois de Moore.

Oscar 2025
Fernanda Torres e Demi Moore


Mikey é indiscutivelmente uma boa atriz que, no futuro, com certeza vai despontar como uma das melhores da sua geração, mas a meu ver — e de todo o Brasil! — premiá-la nessa noite foi um erro gravíssimo, em especial por tudo que o papel de Elisabeth Sparkle representou na carreira de Demi Moore.

Oscar 2025
Moore como Elisabeth Sparkle em "A Substância"


Premiar Madison — que só tem 25 anos! — enquanto a moça disputava com Moore que estava ali por interpretar uma personagem que sofreu de etarismo e que justamente por isso tomou a substância do título do filme para rejuvenescer e voltar às glórias do passado, foi no mínimo irônico por parte da Academia Cinematográfica. Para não dizer grosseiro.

Oscar 2025


O Oscar de Melhor Atriz foi praticamente uma assinatura e um carimbo na testa de Moore que "Sim. Você está velha mesmo e nós vamos premiar uma atriz novinha no seu lugar para colocá-la sob os holofotes que já foram seus!”.

E cá entre nós, com todo o respeito a Demi Moore e a Mikey Madison, mas a Fernanda Torres comeu as duas com farinha em matéria de interpretação em “Ainda Estou Aqui”. Nem tem o que dizer!

Coroando ainda mais as polêmicas da noite, “Anora” superou “Conclave”, “O Brutalista”, “A Substância” e o próprio “Ainda Estou Aqui” em Melhor Filme, e saiu consagrado do Dolby Theatre com nada menos do que CINCO estatuetas das seis que disputou.

Eu não vi “O Brutalista” com as suas infindáveis três horas e quarenta minutos de projeção, mas apenas analisando superficialmente as críticas ao looooonga, era bem fácil acreditar que a história que premiou Adrien Brody como Melhor Ator tinha muito mais conteúdo a apresentar do que “Anora”. Sem falar que “Conclave” era um filme muito mais com “cara de Oscar” do que a produção criada por Sean Baker.

Oscar 2025
Adrien Brody como Melhor Ator por "O Brutalista"


Não posso negar que eu gostei muito de “Anora” e que certamente vou reassisti-lo no futuro assim que surgir em algum streaming, mas que essa premiação de “Melhor Filme” e de “Melhor Atriz” foi bastante exagerada, principalmente se levarmos em consideração que o longa já tinha sido devidamente premiado na noite, ah, isso foi!

P.S. – O prêmio de Melhor Curta-Metragem saiu para o ÚNICO filme que tive a oportunidade de assistir esse ano. “I’m Not A Robot” é um interessantíssimo curta sobre uma mulher que falha incansavelmente em provar que não é um robô para um teste de captcha de internet, o que coloca em xeque a sua própria percepção de humanidade. Aproveita que o filme está disponível no Youtube e pode ser visto agorinha, agorinha!


P.S. 2 – E o vácuo que o Walter Salles, não-intencionalmente (pelo menos eu acho!), deixou o coitado do Edward Norton na hora de receber o prêmio de Melhor Filme Internacional, hein? Eu não vi na hora, mas quando reprisou o momento na Globo, deu pra ver direitinho a cara de tacho do ator, que só pôde mesmo ser consolado por nossa Fernandinha Pikachu logo em seguida.

Oscar 2025

P.S. 3 - E o que foi o discurso interminável do "Pianista" Adrien Brody na hora de receber o seu Oscar de Melhor Ator, o segundo da sua carreira? O John Lithgow não gostou nada nada dessa demora toda!



Eu falei dos vencedores do Oscar desse ano "Anora" e "Ainda Estou Aqui" recentemente no Blog do Rodman. Para acompanhar a resenha sobre "Conclave" e "Emilia Pérez" clica no banner aí embaixo. 

Anora e Emilia Pérez no Conclave


NAMASTÊ!

25 de fevereiro de 2025

Ainda Estou Aqui - Review

Ainda Estou Aqui


O Golpe Militar iniciado no ano de 1964 no Brasil começou a ganhar força após a posse do presidente João Goulart (o Jango) em 1961. Devido à sua estreita relação com o sindicalismo brasileiro, os grupos conservadores no país viam Goulart com extrema desconfiança, frequentemente o acusando de ser comunista.

A crise política do governo de Jango se fortaleceu também por causa das reformas defendidas pelo seu governo — as Reformas de Base —, que, entre outras coisas, propunham a reforma agrária, tributária, eleitoral, bancária, urbana e educacional. 

Entre todas essas propostas, a que teve discussão mais avançada nos quadros políticos brasileiros foi a agrária, que estipulava que terras com mais de 500 hectares que fossem improdutivas seriam alvo da reforma, sendo desapropriadas mediante a indenização de títulos da dívida pública a serem resgatados em longo prazo.

A posse de Goulart não era um incômodo apenas para os grupos conservadores do Brasil que eram contra as tais reformas propostas por ele. A sua eleição incomodava também o governo dos Estados Unidos, que considerava João Goulart um político “muito à esquerda” do que se esperava de um presidente brasileiro — lembrando que nessa época, a Guerra Fria dividia o mundo em dois segmentos, aqueles apoiados pelos EUA e os apoiadores da URSS.

Duas ações do governo de Jango aumentaram essa oposição do governo americano, que passou a financiar as movimentações golpistas no Brasil. A primeira ação foi a Lei de Remessas de Lucros de 1962, que impedia multinacionais de enviar mais do que 10% de seus lucros para o exterior. A segunda medida que desagradava aos americanos, era a continuidade da política externa independente do Brasil e praticada pelo Ministro das Relações Exteriores, San Tiago Dantas.

Com isso, a partir de 1962, os Estados Unidos passaram a financiar ativamente grupos e políticos conservadores no Brasil. Dois grupos que recebiam amplo financiamento americano ficaram conhecidos como “complexo Ipes-Ibad”, sendo Ipes o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, e o Ibad, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática.

O Ibad, inclusive, foi alvo de uma CPI em 1962 porque recebeu milhões do governo americano para financiar a campanha de mais de 800 políticos durante as eleições daquele ano. Os políticos apoiados eram conservadores, e o objetivo era criar uma frente parlamentar que barrasse o governo de João Goulart de todas as formas. Segundo a legislação brasileira da época, esse tipo de financiamento era ilegal.

Já o Ipes era um grupo que atuou decisivamente no sucesso do golpe civil-militar em 1964. Em sua fachada pública, o Ipes atuava como instituição que fazia produção intelectual de livros e documentários, mas a atuação secreta do Ipes nos quadros políticos do Brasil é resumida em custear uma campanha de propaganda anticomunista, bancar manifestações públicas antigovernistas e escorar, inclusive no âmbito financeiro, grupos e associações de oposição ou de extrema-direita.

Em meio às discussões acaloradas sobre reforma agrária, quem atuou como vice-presidente da CPI instaurada para investigar o financiamento eleitoral suspeito de parlamentares com uso de recursos do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais (Ipes) foi o, na época, deputado federal Rubens Paiva.

Ainda Estou Aqui Rubens Paiva
Rubens Paiva


A desestabilização do governo de Jango também foi, em grande parte, realizada pela imprensa brasileira. Os jornais de grande circulação do Brasil — entre eles, O Globo — uniram-se em uma articulação golpista que recebeu o irônico nome de “Rede da Democracia”.

Em março de 1964, a conspiração dos grupos da extrema-direita estava a pleno vapor, e uma ação de Jango desencadeou de maneira antecipada o golpe no Brasil. Em 13 de março de 1964, foi realizado o Comício da Central do Brasil. Esse comício mobilizou aproximadamente 200 mil pessoas. Nele, João Goulart reassumiu seu compromisso com a realização das Reformas de Base. O discurso de Jango deu a entender que o presidente havia abandonado a política de conciliação e que partiria na defesa das Reformas de Base junto aos movimentos sociais.

A reação conservadora foi imediata na forma da assim chamada "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" nas ruas, no dia 19 de março. Essa passeata mobilizou mais de 500 mil pessoas em São Paulo contra o comunismo e pela reivindicação da intervenção dos militares na política brasileira. Essa passeata foi organizada pelo Ipes e deixou bem clara a extensão do poder dos grupos golpistas, além do temor da classe média com as reformas e com os movimentos sociais que surgiam pelo país.

Enfraquecido e sem o apoio dos aliados mais próximos — como o Amaury Kruel, representante do Exército que apoiava Jango — e enquanto os militares marchavam contra o governo, Goulart foi removido do seu cargo como presidente pelo senador Auro de Moura, em 2 de abril de 1964. O ato abriu o caminho para que a Junta Militar tomasse o poder do Brasil. No dia 9 de abril, foi decretado o Ato Institucional nº 1 e a Ditadura Militar no Brasil começou a ganhar forma.

Após o governo de Castello Branco (1964 – 1967) que sucedeu Jango e que foi nomeado como o primeiro presidente militar da ditadura, quem assumiu o posto de presidente foi Costa e Silva (marechal do Exército e um dos articuladores do golpe de 1964), consolidando a transição para o período mais repressivo da ditadura.

Com os poderes concedidos a ele, o marechal conseguiu ampliar o aparato repressor do governo, perseguiu movimentos estudantis e operários e concluiu esse processo com o decreto do Ato Institucional nº 5 no final do ano de 1968.

Segundo as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloísa Starling

“O AI-5 era uma ferramenta de intimidação pelo medo, não tinha prazo de vigência e seria empregado pela ditadura contra a oposição e a discordância”.

Com a morte de Costa e Silva em decorrência a um derrame, quem assumiu o cargo foi Garrastazu Médici (general do Exército brasileiro) em 1969. O seu governo foi instaurado em um contexto de crescente repressão política após o AI-5, e a sucessão de Costa e Silva foi marcada por um forte autoritarismo, com intensa censura e repressão aos opositores, ao mesmo tempo que o país vivia o chamado “Milagre Econômico”, caracterizado por um rápido crescimento econômico e aumento das desigualdades sociais.

É em meio a esse cenário sombrio da nossa história que se passam os eventos narrados no filme “Ainda Estou Aqui” dirigido por Walter Salles e baseado no livro homônimo escrito por Marcelo Rubens Paiva.

Ainda Estou Aqui Marcelo Rubens Paiva


O filme

A história do filme se inicia no ano de 1971, em meio ao endurecimento da ditadura militar e à perseguição dos simpatizantes às causas ditas comunistas. No Rio de Janeiro, a família Paiva — Rubens (vivido por Selton Mello), Eunice (interpretada por Fernanda Torres) e seus cinco filhos — vive à beira da praia em uma casa de portas abertas para os amigos.

Selton Mello e Fernanda Torres


Já nos primeiros minutos do longa-metragem, é possível ver que a repressão do Exército está presente nas ruas do Rio, com veículos camuflados “desfilando” de um lado a outro da cidade, deixando bem clara a sua opressão e eterna vigilância.

Como é descrito no roteiro e no livro a que ele é baseado, Eunice e os filhos não sabiam a natureza das ações paralelas que o engenheiro Rubens tinha junto aos aliados — entre eles, sindicalistas, professores, ativistas políticos e militantes clandestinos. 

Após o AI-5, em 1968, Paiva buscava apoiar, de alguma forma, grupos como o MR-8 — o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, uma organização política marxista que participou da luta armada contra a ditadura militar brasileira — e encaminhava cartas de perseguidos políticos exilados no Chile.

O filme chega a mostrar algumas dessas reuniões e expõe o desejo de Paiva em ajudar as inúmeras pessoas que estavam sendo perseguidas contundentemente pelos militares que tomavam conta do país.

Paiva nunca ignorou os riscos, mas subestimou a capacidade das forças militares a cargo do governo de monitorar os seus movimentos, tal qual ao de seus aliados. A ponto que num certo dia, ele é levado por militares à paisana de sua própria casa e desaparece para sempre, deixando a mulher e os filhos. Eunice — cuja busca pela verdade sobre o destino de seu marido se estenderia por décadas — é obrigada a se reinventar e traçar um novo futuro para si e seus filhos.

O filme também mostra que, mesmo após o desaparecimento de Rubens, a família Paiva continua sendo alvo da coerção dos agentes militares. Num dos trechos mais tensos do longa, Eunice é levada de casa junto de uma das filhas, a Eliana (vivida na primeira fase do filme pela atriz Luiza Kosovski) para que ambas deem depoimento ao DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna).

Ainda Estou Aqui


Como toda a história é focada em Eunice, não vemos com nitidez o que ocorre à Eliana ao longo das vinte e quatro horas que a menina de, na época, quinze anos, ficou em poder dos militares. Em vez disso, somos atingidos duramente pela realidade à que a própria Eunice passou durante os doze dias em que esteve trancafiada, não só pelos intermináveis interrogatórios como também à sua privação da liberdade. Da distância dos filhos pequenos e da ignorância completa sobre o que teria acontecido com a filha adolescente enquanto ela estava fechada em uma cela, ouvindo o lamento dos outros presos políticos e os sons das agressões a que eram submetidos.

Toda essa sequência do filme é brilhantemente dirigida por Walter Salles, a ponto de sentirmos toda a angústia de Eunice e todo o terror que os porões do DOI-Codi causavam em suas vítimas. Tanto físicos quanto psicológicos.

Ainda Estou Aqui


No filme, é dito que Eliana foi apenas interrogada e que ela não chegou a sofrer nenhum tipo de agressão física, porém, em uma reportagem a um jornal, anos após o ocorrido, a filha de Rubens Paiva revelou que sofreu sim abusos por parte dos militares. Que além de interrogada, ela chegou a ser agredida — com choques na cabeça — e que passou até mesmo por abusos sexuais, o que não é mostrado na história do filme, mas que fica subentendido, já que ninguém que entrava naquelas salas de tortura conseguia ficar ileso.

Após a prisão e a sua liberdade, Eunice começa então a sua luta para descobrir o paradeiro do marido. Ela recorre à antiga rede de aliados de Rubens na esperança de que alguém lhe diga o que houve com ele, que lhe revele o que aconteceu do momento em que o engenheiro foi levado de casa até chegar aos portões do DOI-Codi, e é baseado nesse “mistério” que o filme Ainda Estou Aqui constrói algumas das melhores sequências dramáticas que elevaram o nome de Fernanda Torres às premiações mundiais de cinema por sua atuação magnífica.

Walter Salles e Fernanda Torres
Walter Salles e Fernanda Torres


O filme não conta uma história ficcional, mas sim faz um recorte muito específico daquele que foi um dos períodos mais sombrios da política brasileira, e que deixa marcas no país até hoje. Marcas essas que muita gente ainda nega ou que tenta enfraquecer com discurso populista para agradar os seus seguidores.

Além de Selton Mello e Fernanda Torres, o longa ainda conta com atores como Dan Stulbach (Bocayuva Cunha), Humberto Carrão (Félix) e Daniel Dantas (Raul Ryff) — todos eles fazendo parte da rede de amigos próximos de Rubens.

As crianças, que interpretam os filhos de Eunice e Rubens são encabeçadas pelo menino Guilherme Silveira (Marcelo, o autor do livro “Ainda Estou Aqui” em sua infância), Valentina Herszage (como Veroca, a filha mais velha), a já citada Luiza Kosovski (Eliana), Bárbara Luz (Nalu) e Cora Mora (como a caçula Maria Beatriz).

Guilherme Silveira, Valentina Herszage, Luiza Kosovski, Bárbara Luz e Cora Mora


Com cinco milhões de espectadores só no Brasil, Ainda Estou Aqui já arrecadou mais de R$ 127 milhões nacionalmente. O filme foi muito bem recebido no exterior e, desde o início da sua campanha de exposição na gringa, já abocanhou alguns dos prêmios mais importantes do cinema, entre eles, o Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Veneza e o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama para Fernanda Torres — o que rendeu uma comemoração a la Copa do Mundo no país.

Ainda na lista de prêmios de "Ainda Estou Aqui", constam:

Prêmio do público do Vancouver International Film Festival;

Filme Favorito do Público do Mill Valley Film Festival;

Filme Favorito do Público do Miami Film Festival GEMS;

Prêmio do Público do Festival de Pessac, na França;

Prêmio Danielle Le Roy;

Satellite Awards;

Melhor filme ibero-americano pelo Prêmio Goya;

É claro que ainda estamos na torcida pelo Oscar, em que o filme concorre a três categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz, com chances muito boas para Fernanda Torres, que já levou o Globo de Ouro por sua atuação como Eunice Paiva.

Enquanto boa parte da população brasileira torce pelo sucesso do filme que escancarou de maneira elegante um recorte do que foi a ditadura militar brasileira financiada pelos Estados Unidos, é claro que há também uma boa parcela de elementos da nossa sociedade que têm se botado contra a simples elegibilidade do filme a prêmios como o Oscar, por exemplo, e que tem tentado boicotar o longa no país.

Para essa raça desgraçada e asquerosa gente, nunca houve um Golpe Militar em 1964, logo não há porque acreditar na palavra dos familiares dos presos políticos, nos sequestros ou nas execuções que ocorreram nos porões de coerção do Exército ao longo dos vinte e um anos que durou a ditadura no Brasil.

O na época presidente do país, Jair Bolsonaro — hoje inelegível e às vias de ser punido pela tentativa de Golpe do Estado em 2023 — alegou a plenos pulmões em 2022, ano em que se completava 58 anos do Golpe que:

“31 de março. O que aconteceu nesse dia? Nada. Nenhum presidente da República perdeu o mandato nesse dia. Congresso, com quase 100% dos presentes, elegeu Castello Branco presidente à luz da Constituição”.

Disse ainda que se não fossem as obras realizadas pelo governo militar “seríamos uma republiqueta”, negando absolutamente os horrores causados a quem ousava pensar diferente do governo vigente de 64, ou que simplesmente divergisse do modo conservador de se encarar o mundo.

Ainda sobre os desaparecidos durante o regime militar, como foi o caso do próprio Rubens Paiva cujo corpo jamais foi encontrado, o mesmo Bolsonaro alegou que "quem procura osso é cachorro", desdenhando abertamente acerca do paradeiro daqueles que foram punidos violentamente entre 1964 e 1985 e cujos restos mortais nunca foram entregues às suas famílias para um enterro digno.



O fato é que a própria figura de Bolsonaro — um ex-militar ignorante, mas de língua solta contra os adversários — serviu para desenterrar esse sentimento de impunidade que tomou o país mesmo após as Eleições Diretas em 1985 e a volta da democracia ao país — lembrando que pouquíssimos militares foram punidos pelos desaparecidos políticos no país ou sequer foram indiciados. 

Desde a sua ascensão ao âmbito nacional, Bolsonaro e todo o seu séquito fanático alardeiam que a ditadura foi algo "benigno para a sociedade", que "só quem tinha culpa no cartório é que devia se preocupar com as punições da ditadura" e que "os cidadãos não tinham o que temer".

Cidadãos de bem esses que desejam sempre morte e destruição a quem pensa diferente a eles. Que amam a Deus acima de tudo, mas que na primeira oportunidade, querem pegar em uma arma para eliminar o seu próximo.



Em 2023, logo após a posse do então eleito presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorreram os atentados de 8 de janeiro e a depredação do patrimônio público do Planalto em Brasília. Com esse ato hediondo, veio a revelação de que pessoas poderosas estavam por trás das ações daqueles que foram colocados à frente do quebra-quebra, usados como massa de manobra. E as investigações que vêm sendo feitas até hoje apontam que houve SIM uma nova tentativa de golpecom planos de assassinato ao presidente eleito, ao seu vice e ao Ministro do Supremo Tribunal Federal —, e que o Brasil esteve muito perto de um novo 31 de março.

Se engana quem acha que estamos seguros em uma democracia inabalável. Que a ascensão da extrema-direita em vários pontos do mundo não impacta diretamente na política brasileira. 

Filmes como Ainda Estou Aqui precisam continuar sendo criados para que a nossa memória sobre esse passado sórdido não seja amortecida, e que estejamos sempre alertas contra aqueles que não querem nada além do próprio bem acima de tudo. Pelo “bem”, pela “pátria” e pela “família”.

P.S. – Enquanto desfilava em um bloco de carnaval em São Paulo, Marcelo Rubens Paiva, o autor de Ainda Estou Aqui, foi agredido por uma lata e uma mochila, atiradas por um representante bolsonarista que fazia parte do bloco. O autor da agressão saiu ileso e não sofreu nenhum tipo de represália. Em depoimento aos jornalistas após o ocorrido, Marcelo falou sobre a covardia de um sujeito que tem coragem de se manifestar dessa maneira em uma festa popular, ainda mais atacando um cadeirante que só estava ali para se divertir, como todo mundo.

Marcelo Rubens Paiva e o homem apontado como o autor da agressão


Parece um fato isolado, mas é necessário continuarmos em alerta. Quem apoia a extrema-direita não tem pena. Não tem compaixão ou sequer empatia por ninguém. Eles acham que estão acima de qualquer pessoa porque “acreditam em Deus” e que por isso podem fazer qualquer coisa.


P.S. 2 - Recentemente foi veiculado que o STF vai analisar o caso Rubens Paiva mesmo após 54 anos do seu desfecho trágico. Se a Lei da Anistia puder ser aplicada aos casos de tortura da Ditadura, é possível que, enfim, os culpados do assassinato do engenheiro — que ainda estão vivos —   possam ser culpabilizados e punidos devidamente.  


Concluo esse post com "É preciso Dar um Jeito, Meu Amigo", a música tema de Ainda Estou Aqui, composta por Roberto e Erasmo Carlos e interpretada por Erasmo.

♪É preciso dar um jeito, meu amigo

É preciso dar um jeito, meu amigo

Descansar não adianta

Quando a gente se levanta

Quanta coisa aconteceu♫

FONTE DE PESQUISA:

O GOLPE DE 1964


RUBENS PAIVA









NAMASTÊ!

5 de maio de 2021

Adeus a Paulo Gustavo



Vou começar o post com uma frase clichê que sempre é dita quando um humorista se vai, mas que representa exatamente o momento atual: hoje o Brasil ficou mais triste com a passagem de Paulo Gustavo.

É muito complicado tentar exprimir em palavras o que a gente sente quando alguém tão popular, que de certa maneira faz parte da nossa vida, se vai e é preciso ter um poder muito raro de concisão para colocar num texto tudo que acaba saindo no calor do momento, por isso, eu nem vou tentar. Vou falar aqui com o coração mesmo, desprovido de coesão, razão ou qualquer poder de síntese. Vai ser no improviso.

Eu conheci o Paulo Gustavo, até meio tardiamente, já no palco do Vai que Cola  humorístico do canal Multishow —, vários anos depois dele já ter despontado com suas peças teatrais de sucesso e os filmes estrelados no cinema nacional. Eu chegava do trabalho mais ou menos por volta das 20:00, às vezes mais tarde, tomava um banho, esquentava alguma coisa pra comer e ia pra frente da TV assistir ao programa basicamente todos os dias da semana. Em pouco tempo, virou um vício na casa da minha mãe e a gente ria muito assistindo os improvisos e a “trocação” que o ator fazia “ao vivo” com os colegas de humor Samantha Schmütz, Marcus Majella e — na época da 1ª temporada — Fernando Caruso. Aliás, por mais que o texto do sitcom brasileiro fosse realmente engraçado e a direção de cena muito competente, eram mesmo as falas fora do script que davam o verdadeiro tom da atração. Era impossível não cair no riso.



Fazia muito tempo que eu não assistia TV e menos ainda programas ditos humorísticos com aquela coisa mais quadrada cheia de bordões ensaiados como “A Praça é Nossa” ou o antigo “Zorra Total”. Eu já não achava mais graça de coisas assim e nem perdia meu tempo vendo. O Vai que Cola e em especial o humor “bagaceiro” do Paulo Gustavo é que me fez gostar novamente de atrações assim e ele com seus personagens caricatos e exagerados nos fazia rir genuinamente, sem aquela forçada — o sorrisinho amarelo — que às vezes nos permitimos só para não admitir que estamos é constrangidos pelas piadas sem graça. E nem estou falando do Valdomiro, o personagem pilantra que Paulo interpretava no sitcom desde a primeira temporada, aquele que adorava falar mal do bairro do Méier do Rio de Janeiro — onde se passava a história — de sacanagem. Como ele mesmo costumava brincar com o amigo Majella — e esse diálogo aparece até no primeiro filme baseado no programa — os dois não sabiam interpretar personagens héteros. O grande talento de Paulo estava mesmo em fazer graça na pele de mulheres ou gays rasgadíssimos, algo no qual ele era insuperável.

A gente nem mede o sucesso de Paulo Gustavo ou sua importância para o mundo do humor por ele fazer a nossa geração rir, mas sim dele ter uma capacidade impressionante de atingir as nossas mães, as nossas avós, um público mais antigo que não está acostumado ou mesmo faz esforço para entender que homossexuais existem e merecem tanto espaço quanto qualquer outra pessoa, seja de qual orientação for. A gente que teve tempo de se informar mais, de procurar entender o outro com empatia vê em Paulo Gustavo — homossexual assumido desde sempre — apenas um cara engraçadíssimo que tem uma facilidade fenomenal de causar risos falando de sexualidade, mas nossos pais são da época em que “viado”, “sapatão” ou qualquer outro apelido mais pejorativo eram comuns e que “esse tipo de gente” não deveria ter tanto espaço. Em rede nacional, quase no horário nobre, Paulo Gustavo foi lá e fez as nossas mães rirem com piadas sobre sexualidade, com shows de drags e muita “pinta”, coisas impensáveis há vinte, talvez trinta anos.     

Minha mãe já disse frases como “eu não vejo nenhuma graça nesse novo Zorra”, quando o programa tentou uma abordagem menos machista, menos homofóbica e fazendo um humor mais consciente nas noites de sábado da Globo. Ela dava risada vendo o Didi chamar o Mussum de “urubu” na época dos Trapalhões, gostava de quadros como “dá uma subidinha” — cheio de sexismo — protagonizados no Zorra Total pelo também saudoso Agildo Ribeiro e odeia programas como Casseta & Planeta e o humor mais atual de atores como Marcelo Adnet, Tatá Werneck ou Rodrigo Sant'Anna. Ah, mas do Paulo Gustavo ela gostava. E muito! Eu ouvi da boca dela que o Vai que Cola só tinha graça quando tinha o Valdomiro e que quando ele saiu lá pela terceira ou quarta temporada, sei lá, segundo ela, o humorístico tinha perdido a graça.



A catarse e a entrega total pelo talento do humorista de 42 anos veio mesmo com seu papel essencial da carreira e quando eu coloquei para passar Minha Mãe é uma Peça para a MINHA mãe assistir, não tinha mais como negar ao vê-la gargalhar em frente à TV: Paulo Gustavo tinha mesmo o poder de reunir várias gerações com sua interpretação PERFEITA da matriarca ciumenta, desbocada e barraqueira, mas que tinha em sua essência aquele coração enorme que a gente identificava também em nossas mães. Há um pouquinho da Dona Hermínia na minha mãe e tenho certeza que quem está lendo esse texto vai balançar a cabeça nesse momento, concordando com o que digo e pensando “na minha também! ”. O talento de se entregar tanto ao seu trabalho ao ponto de abraçar virtualmente inúmeras pessoas de credos, culturas e orientações diferentes é raríssimo. Talvez eu tenha visto em alguma figura do esporte, da política ou mesmo de outras áreas da TV que não a das artes cênicas, mas nesse ramo do humor jamais.

O dublador e ator Guilherme Briggs sintetizou esse pensamento de maneira muito lúcida em sua conta do Twitter e eu não teria maneira de incorporar em meu texto sem usar suas palavras exatas, por isso farei um quote direto do que ele disse:

“O objetivo do artista é dar mais do que aquilo que tem. E assim fez o amado Paulo Gustavo, que se doou de tal forma, com tanto amor e intensidade, com tanta entrega e desenvoltura, que agora ele se transferiu de corpo e alma para dentro do coração do Brasil, para sempre. ❤”

E é isso! É uma tristeza muito grande ver um artista com um talento tão grande ser levado dessa maneira tão brutal por uma doença que já arrastou com ela mais de 400 mil vidas e que pasmem, já tem uma vacina. Enquanto choramos a morte de Paulo Gustavo, mais outras 400 mil famílias também choram por seus entes queridos, pais, mães, avós, irmãos, namoradas e tias, todos levados, sobretudo, pela negligência de um governo negacionista que podia ter feito muito mais pela população em todos esses meses e que preferiu se omitir, fingindo que tudo não passava de uma marolinha no oceano e não o verdadeiro tsunami que acabou sendo a pandemia de Covid-19.

Estamos tristes, machucados e já sentimos muito a perda de Paulo Gustavo, mas ao mesmo tempo, esperamos que depois de tanta luta, que depois de mais de 50 dias de internação, ele possa enfim descansar em paz e que lá de cima esteja olhando por seus entes queridos, a mãe — a grande inspiração para a Dona Hermínia —, sua irmã, seu marido e os dois filhos que infelizmente crescerão sem a sua presença maravilhosa aqui na Terra. Um cara gay que conseguiu reunir inúmeras tribos fazendo rir e que arrecadou com um filme mais de 140 milhões em bilheteria — a maior do Brasil — num país que nem sequer valoriza o próprio cinema. Isso não é pra qualquer um! Sua passagem por nossas vidas foi breve, como um meteoro no céu, mas seu trabalho jamais será esquecido. Descanse em paz, querido. Obrigado pelas noites de gargalhadas.


 

“… contra o preconceito, a intolerância, a mentira a tristeza já existe vacina: é o afeto, é o amor! ”.

NAMASTE!

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