25 de dezembro de 2010

KICK ASS - A análise


A história do filme Kick Ass é curiosa, uma vez que ele começou como uma produção de nível B, sem patrocinadores, sem estúdios interessados em levá-lo aos cinemas, com personagens desconhecidos e pouco atraentes para o grande público. O diretor Matthew Vaughn e Mark Millar, o criador da história original nas HQs, pareciam ser os únicos empolgados com as filmagens, até que o teaser foi apresentado na Comicon de San Diego e a recepção do público fez com que os estúdios se estapeassem para lançar o projeto.


Kick Ass - Quebrando Tudo não foi exatamente um boom nas bilheterias, tendo faturado apenas 95 milhões de dólares em todo o mundo, com um custo de produção de aproximadamente 30 milhões de verdinhas. Perto de mega-sucessos como Homem de Ferro, o herói blindado da Marvel, por exemplo, que rendeu mais de 100 milhões só no primeiro fim de semana de exibição em maio de 2008, Kick Ass teve um faturamento modesto, o que torna até injusta a comparação com outros medalhões da Casa das Ideias.

Assim como o Homem de Ferro, Kick Ass também é da Marvel, embora suas primeiras 8 edições tenham sido lançadas por um selo de títulos independentes chamado Icon, e seu criador se destaca por saber criar polêmicas em volta das revistas que escreve (entre outras coisas ele também escreveu Guerra Civil e Supremos na linha Ultimate).



O enredo tanto do filme quanto da HQ fala sobre a vida de Dave Lizewski, um adolescente comum que não é o gênio da sala, o atleta da sala ou o palhaço da sala. Como ele mesmo se descreve nos primeiros quadros do gibi “assim como outras pessoas da minha idade eu meramente existia” e isso cria uma certa identificação com o público, uma vez que a história se passa no mundo real, onde os super-heróis não existem e muitas pessoas se veem como perdedoras.


Com os amigos, Dave levanta a questão de por que nunca ninguém tentou ser super-herói na vida real, e a resposta é sempre a mesma: Porque isso é algo impossível. Todos os dias acontecem assaltos nas grandes cidades, injustiças sociais e mesmo agressões sem que ninguém faça nada. Alguns até presenciam algumas dessas infrações, mas nada fazem seja por medo ou por covardia de se envolver. Dave então questiona os amigos de por que isso é impossível. “Colocar uma máscara é impossível?”. Citando Bruce Wayne, Dave levanta a questão de que não é preciso ter superpoderes para combater o mal e sim um pouco de coragem de fazer o que é certo, e é aí que Mark Millar ganha méritos por criar um enredo fantástico no qual acompanhamos o jovem medíocre em sua jornada para se tornar o primeiro herói da vida real, e também todas as consequências que tal ato sofreria se fosse em nosso mundo.




Quem leu a HQ e assistiu o filme viu o mesmo personagem em histórias muito diferentes. Ambas são recheadas de violência e situações absurdas, mas a linha que conduz as duas diferentes mídias é distinta.

Nos quadrinhos a riqueza de detalhes é muito maior, embora a história se desenrole de forma mais ágil. As sutilezas do roteiro bem como o desvendar de alguns mistérios se dão de forma adequada, surpreendendo o leitor a cada edição.




No filme, já vemos desde o início todas as portas dos mistérios abertas. Conhecemos o herói, conhecemos os vilões e não há qualquer surpresa com relação a isso. Matthew Vaughn também cria facilitações no roteiro, permitindo assim que a história se torne mais tragável em certos pontos. Damon Macready (Big Daddy) é um ex-policial de verdade e não um colecionador de gibis, Katie Deauxma dá mole para Dave e em certo ponto até namora o protagonista, ele conta pra ela que é o Kick Ass e ela aceita (!), o nome do gangster que serve como o vilão da história é Frank D’Amico e não John Genovese, e o final do filme é feliz para Dave. Para os bons observadores, não é preciso muito esforço para notar que nada disso acontece na HQ.

Já tivemos vários filmes em que nem sempre o mocinho se dá bem no final e decididamente não compreendo em que momento Vaughn decidiu modificar a história para que ela se tornasse mais palatável. A HQ é sim cruel e politicamente incorreta, só que esses detalhes não são maquiados no filme. Teria a história do Paizão sido modificada devido algum pedido pessoal de Nicolas Cage, seu intérprete? O público se identificaria mais com um herói que fica com a mocinha no fim?




Sendo Kick Ass a história de um personagem que vive num mundo real, a decisão mais acertada seria manter essas imperfeições de caráter, uma vez que ninguém é perfeito na realidade igual a super-heróis como Superman, Capitão América e tantos outros. Seja como for, essas alterações nas características básicas dos personagens e o final da história são as grandes diferenças entre a HQ e o filme, o que as tornam únicas.



Kick Ass possui um círculo restrito de personagens que se relacionam ao longo das HQs. Em princípio conhecemos Dave Lizewski, o “Chuta-Rabos” do título, seus dois amigos Marty e Todd, Katie Deauxma, o interesse romântico de Dave e o pai viúvo de Dave, o Sr. Lizewski. Apenas na 3ª edição é que somos apresentados a Genovese e sua gangue e mais tarde à Hit Girl e seu Paizão, personagens que são vistos por Dave como dois super-heróis legítimos.
No filme, já conhecemos Chris D’Amico (Chris Genovese na HQ) logo no início e não é segredo que ele é filho do maior gangster da cidade. Seu plano de se aproximar de Kick Ass para capturar Big Daddy (Paizão) e Hit Girl, que num dado momento fazem uma aliança contra o crime, é feita às claras, assim como a criação de sua identidade secreta, o Red Mist (Névoa Vermelha).
Todos os personagens possuem uma relação simples de entender.




Kick Ass decide combater o crime e fica famoso quando um vídeo seu defendendo um homem de um espancamento cai na Internet.

Big Daddy e Hit Girl também combatem o crime e decidem propor uma aliança (forçada) com Kick Ass ao ver o sucesso que o garoto está fazendo nas redes sociais.
Genovese (D’Amico) tem seus planos no tráfico de drogas atrapalhados pelas ações de Big Daddy e Hit Girl e decide liquidá-los achando que Kick Ass também tem algo a ver com as ações contra seus homens.

Red Mist, o filho de Genovese, inventa uma identidade secreta para si, ganha popularidade na Internet, assim como Kick Ass, se aproxima de Dave sugerindo uma aliança e trai o garoto quando este lhe indica o esconderijo de Bigg Daddy e Hit Girl.

Tudo é muito bem conectado na HQ, e algumas situações são forçadas no filme para torná-lo mais verossímil, como a possível culpa de D’Amico no suicídio da esposa de Big Daddy e mais tarde também na prisão do mesmo, que estaria infiltrado na gangue do traficante para pegá-lo. A belíssima animação que mostra esse passado oculto de Big Daddy e sua filha é mostrada no filme com a arte de John Romita Jr., o mesmo autor dos desenhos da HQ, mas mesmo assim passa bem longe de sua origem real.



Por contar a história de adolescentes que resolvem combater o crime, Kick Ass – Quebrando tudo conta com um elenco bem jovem, e exatamente por isso meio inexperiente na arte de interpretar.




O protagonista da história vivido por Aaron Johnson não tem exatamente o tipo físico do Dave Lizewski da HQ e nem sua cara feiosa (se bem que Romita Jr. desenha todo mundo feioso), e sua atuação é apenas razoável, embora ele se esforce para dar credibilidade ao papel do nerd loser que interpreta.



Mark Strong como Frank D’Amico, o gangster que faz com que Kick Ass pense duas vezes se quer mesmo ser um herói, tem interpretação apenas burocrática, talvez por culpa do roteiro fraco e do personagem canastrão e clichê que lhe foi dado. Ele passa maldade em seus atos, mas por vezes parece mais uma caricatura (sem graça) dos velhos gângsteres do cinema do que um personagem novo e original. Longe de estar questionando a competência do ator, apenas afirmo que nesse papel ele não foi muito feliz, mesmo que tão pouco tenha sido exigido de sua veia artística.



Não tive a oportunidade de mencionar aqui no Blog ainda a cisma que tenho com o senhor Nicolas Cage e sua eterna cara de bunda que ele dá a todos os seus personagens, quase que sem exceção, mas devo dar o braço a torcer dessa vez, porque ele deu vida de forma competente ao Big Daddy.


Em nenhum momento Cage fica com aquele olhar idiota diante da câmera e ele parece até bem sisudo nos diálogos que tem com a pequena Chloe Moretz no filme, além de dar uma entonação mais grave ao personagem, que nas HQs parece do tipo parrudo. Me surpreendi ao ver Cage levando a sério o seu papel (diferente do que fez em Motoqueiro Fantasma) e o Big Daddy foi o mais próximo que ele conseguiu de viver um grande super-herói nas telas, já que ele perdeu o papel de Superman nos cinemas logo que o projeto “viajandão” de Tim Burton para o personagem foi para o vinagre (graças ao bom Deus) e depois dele ter ajudado a afundar aquela porcaria que foi Motoqueiro Fantasma.



Christopher Mintz-Plasse (o McLovin de SuperBad), com aparência bem mais velha do que o adolescente nerd que interpretou em SuperBad, não compromete no papel de Chris D’Amico e seu alter-ego Red Mist. Longe do tom engraçado e maconheiro que o personagem tem na HQ, seu Red Mist é menos verdadeiro e muito mais medroso. Quase não há diferença entre sua personalidade antes de trair Kick Ass e depois, e rola até uma cena de arrependimento quando Red Mist implora que os capangas do pai não machuquem o herói verde e amarelo.


Red Mist é bem mais sádico na HQ, e ele parece se divertir quando vê Kick Ass apanhando pra valer dos homens de Frank D’Amico. Outra amenização desnecessária, já que para o grande público, a luta final entre os dois teria muito mais impacto se Red Mist fosse um traíra de sangue ruim ao em vez de um babacão que se arrepende de seus atos.



Decididamente as melhores cenas do filme são protagonizadas pela pequena e fofíssima Chloe Grace Moretz (atualmente com 13 anos), que dá vida à Hit Girl (Garota Perigo??).


Embalada por músicas que parecem ter sido tiradas de animes japoneses, Chloe se deleita em cena esfaqueando, decapitando, mutilando e alvejando os capangas de D’Amico. Alguns de seus golpes só são possíveis graças ao “arame fu” hoje tão usado em Hollywood, mas em nenhum momento isso diminui o impacto da garota na tela, que protagoniza as melhores cenas de ação do filme todo.

Imagine uma pequena ninja de 11 anos tirada de algum desenho japonês, de peruca lilás e armada até os dentes. Misture-a com a inteligência e as técnicas de combate do Robin e você saberá exatamente o que é a personagem Hit Girl.


Por mais que a personagem seja um dos elementos mais absurdos de Kick Ass e que tire um pouco daquele caráter “verossímil” que tanto a HQ quanto o filme desejavam passar – querem que o público engula uma serial-killer de 11 anos que massacra um bando de marmanjos?- a Hit Girl dá o fôlego que a história precisa, uma vez que o personagem título é desprovido de qualquer treinamento físico. No filme também são delas as principais cenas chocantes e eu nunca tinha visto nada tão politicamente incorreto no cinema desde que o leão Alex espanca uma velhinha em Madagascar 2!


Logo em sua apresentação, Chloe leva um tiro no peito de Nicolas Cage. Depois ela insinua que quer um cachorrinho fofinho como presente de aniversário para desagrado do Paizão, para logo em seguida confessar que está zombando e que prefere um canivete suíço!

Ao entrar na casa do traficante Razul (Eddie Lomas na HQ), ela simplesmente empala, mutila e decapita os bandidos, e repete seus atos de crueldade ao invadir o prédio de D’Amico já na sequencia final do filme. Fico imaginando por quantos psicólogos a pequena Chloe precisou passar durante a gravação desse filme, porque o politicamente correto aí passou batido.

Me lembrou um filme tupiniquim que coloca uma arma nas mãos de um menor.



Mas todo mundo sabe que no Brasil isso é normal, né.




Chloe começou a atuar desde pequena , fez aparições na TV, na série The Guardian, no filme para a TV The Family Plan e já no cinema fez o filme The Amityville Horror (2005), no papel de Chelsea Lutz, co-estrelando com Ryan Reynolds e Melissa George. Por este papel, foi indicada para o Young Artist Award. Além desse filme participou de seriados de TV, incluindo dois episódios de Desperate Housewives e do filme Momma's House 2, no papel de Carrie Fuller.



Kick Ass ainda tem como destaque Garrett M. Brown como o Sr. Lizewski (que tem pouco destaque no filme), os amigos de Dave Todd e Marty (vividos respectivamente por Evan Peters e Clarke Duke) e a belíssima Lyndsy Fonseca que vive uma Katie Deauxma mais compreensiva e dócil do que sua contraparte das HQs, uma personagem muito mais escrota e intransigente.




Como já comentei aqui falando de outras adaptações de quadrinhos, é muito difícil exigir fidelidade visual nos trajes usados pelos heróis transpostos para as telas, em especial porque muita coisa dos quadrinhos é impraticável trazida para a vida real.


Absolutamente nenhum uniforme foi trazido fielmente à realidade. Kick Ass, Red Mist, Hit Girl e Big Daddy passaram por adaptações (algumas bem radicais) em seus visuais criados por Mark Millar e John Romita Jr.

Kick Ass ganhou uma boca em seu capuz, enquanto a Hit Girl ganhou uma peruca lisa e lilás no lugar da roxa e ondulada que ela usa na HQ. Quem usaria uma peruca que cai nos olhos durante uma luta??




O uniforme de Red Mist nada tem a ver com o original das HQs, e ele também usa uma peruca arrepiada além de uma máscara estilo Asa Noturna no lugar do capuz que cobre toda sua cabeça (apenas no final da HQ ele adota o cabelo para fora do capuz).



O Big Daddy teve a máscara invertida, uma vez que na HQ ela cobre todo o rosto e deixa os cabelos de fora e no filme cobre toda a cabeça e o rosto deixando o queixo de fora, como o Batman.

Aliás, o uniforme é bem inspirado no Batman de Tim Burton, passando pelo tom preto, cinturão amarelo e um volume na cabeça que se assemelha a uma orelha pontuda.


Se me pedissem para escolher uma entre as duas mídias em que Kick Ass foi representado eu escolheria a HQ, até porque a obra original sempre é melhor que suas adaptações.

Até colocar as mãos na HQ eu não me lembrava de já ter visto um ritmo tão alucinante de violência e palavrões numa história em Quadrinhos e aquilo me surpreendeu de forma positiva, além de ter me cativado. Mark Millar já havia chutado o balde no mundo dos quadrinhos ao escrever a excelente Supremos, que relançava os Vingadores para o mundo Ultimate criado por Joe Quesada. Millar chacoalhou o universo tradicional da Marvel colocando em lados opostos o Homem de Ferro e o Capitão América em Guerra Civil e nos presenteou com um ápice pra lá de chocante o embate entre os dois antigos amigos. (Confesso que lágrimas rolaram de meus olhos na edição 3 de guerra Civil, quando o Homem de Ferro tritura o Capitão).
Millar já havia provado que sabia narrar uma história em quadrinhos como poucos, e Kick Ass foi provavelmente a certificação de que é possível sim colocar um conteúdo atraente numa HQ sem precisar descambar para o ridículo.


Kick Ass tem elementos de humor, sadismo, sexo e de violência que casam bem no roteiro. Nosso mundo tem tudo isso, porque uma HQ que retrata essa realidade não poderia ter?

Ok, colocar uma menina de 11 anos para quebrar as fuças de marmanjos, fazer dela uma mini serial-killer desprovida de emoções e falar que um fanboy que vende HQs raras pelo Ebay teria potencial suficiente para bancar o Frank Castle do mundo real é um pouco forçado, mas a essência da história é mesmo mostrar o que aconteceria com uma pessoa normal que resolvesse combater o crime.


Tortura, humilhações, dilacerações e morte era o mínimo que se podia esperar de um enredo assim, e é o que acontece com Dave Lizewski e seus amigos quando eles ousam enfrentar John Genovese e seu bando.



Já comentei aqui o quanto sou fã de John Romita Jr. desde os tempos de Homem Aranha.

Seu traço não é o mais bonito de todos, tem uma infinidade de desenhistas cujos traços me atraem mais do que os de Romita, mas ele alcançou a excelência de seu atual desenho em Kick Ass.



Todos os personagens são feios e quadradões, mas isso não faz a menor diferença quando mergulhamos fundo na narrativa. Romitinha sabe contar uma história visualmente melhor do que ninguém, seus desenhos formam a sequencia necessária para se entender o que está acontecendo, ele utiliza de perspectivas como poucas vezes pude ver nos quadrinhos e as cenas de mortes e dilacerações feitas por ele são impressionantes. Seu talento é indiscutível. A única coisa que podemos questionar em sua arte é seu traço, preferindo esse ou aquele artista (particularmente gosto de desenhistas mais realistas), mas ele não deixa nada a dever em Kick Ass. Vida longa ao mestre.


Kick Ass – Quebrando tudo é um filme divertido que vale a pena ser visto por quem gosta de um bom filme de ação misturado com American Pie. As atuações não são lá grandes coisas, mas o enredo do filme é bem amarrado e não deixa pontas soltas. Não há muito o que se pensar e também não é necessário ter lido a HQ para entender o filme. Embora de forma diferente, tudo é explicado no próprio roteiro e é bem interessante acompanhar a jornada de Dave Lizewski na tentativa de se tornar um herói da vida real e da pequena Hit Girl fatiando capangas com cenas de encher os olhos.

A trilha sonora também é muito boa e incluem hits como “Crazy” de Gnarls Barkley, “Make me Wanna Die” do The Pretty Reckless e “Stand up” do Prodigy.

NOTA: 8

NAMASTE!

FELIZ NATAL


NAMASTE!

22 de dezembro de 2010

A arte de ensinar

Quando eu era mais novo, na minha tenra idade, nunca me imaginei diante de uma sala de aula explicando o que quer que fosse para alguém. Eu era do tipo calado, tímido, que se assustava com a mínima possibilidade de se apresentar um trabalho diante dos colegas da escola. O tempo e a experiência acabaram me ensinando que aquele medo inicial, nada mais era do que o pavor de falhar diante de terceiros, mas aprendi que nem sempre a falha é sinônimo de fracasso pessoal. Como diria um certo mordomo a seu patrão ilustre: “Por que caímos, patrão Bruce?”. Para aprender a se levantar.
Há mais ou menos cinco anos lido com a importante e às vezes extenuante missão de passar meu conhecimento a outras pessoas, e em todos esses anos descobri que o professor, mais até do que em outras profissões, aprende muito mais do que ensina todos os dias. Incontáveis vezes me vi em sala surpreendido por uma pergunta de algum aluno do qual eu não sabia a resposta e aquilo me forçou a sair em busca de mais conhecimento. Outras tantas vezes algum aluno me mostrava formas mais simples de fazer a mesma coisa que eu havia explicado e não raro me vi diante da minha própria ignorância, rindo dela e admitindo que eu não era o dono da verdade, portanto também era passível de erro.
Ensinar algo a alguém não é uma tarefa simples nem tampouco automática. Ensinar exige acima de conhecimento, paciência em lidar com as mais diversas situações que podem ocorrer dentro de uma sala de aula e também saber lidar com os mais diversos tipos de alunos (e olhe que são muitos tipos!). Por mais que o conteúdo da matéria já esteja na ponta da língua, e que você saiba exatamente como conduzir a aula, nunca uma é idêntica à outra. As situações mudam de uma turma para a seguinte e o clima também é outro completamente diferente. Alguns aprendem com certa facilidade, outras aprendem com um pouco mais de empenho e sempre existe aquele que não consegue aprender seja lá qual for o método que o professor utilize. Com o tempo, aprendemos que nossos métodos de ensinar também precisam ser renovados, e até mesmo aquele aluno mais preguiçoso precisa sair satisfeito da aula e te deixando a sensação de dever cumprido. Dar aula é aprender coisas novas todo dia.
Não é o salário, não é o material usado e não é a pressão do chefe que motiva um professor de verdade. A grande motivação de um educador é o aluno. É o prazer de saber que aquilo que foi ensinado valeu a pena, senão para todos, pelo menos para uma boa parte da turma. Passar conhecimento causa uma satisfação indescritível, em especial quando percebemos que aquilo que foi dito atingiu alguém de forma positiva. Não há sensação mais prazerosa do que essa, nem motivação maior também do que saber que você fez a diferença, que você deu o seu melhor e que alguém fez bom uso disso. Só por isso vale a pena.
Sei que em cinco anos enfrentei muitas provações, encarei infortúnios, caí muitas vezes até aprender que aquilo fazia parte do aprendizado. Quando não caía naturalmente, tinha muita gente para tentar derrubar, mas chego ao final dessa etapa um tanto quanto satisfeito, apesar dos percalços, e sei que isso se deve ao fato de que minha consciência diz que de um jeito ou de outro eu fiz a coisa certa. Ao fim desse ciclo que sinto se encerrar com o fim do ano, me vejo feliz por ter feito mais bem do que mal a todos os alunos que tive a honra de conhecer. Alguns são meus amigos até hoje, outros se afastaram naturalmente e outros tantos hoje passam quase que despercebidos pela rua, não pelo desleixo do professor, mas pela minha total incapacidade de lembrar de tantos rostos e nomes. Acredite, são muitos!
Fiz a minha parte. A cada dia tentei dar o melhor de mim. Tenho a consciência que falhei algumas vezes, mas ninguém pode me acusar de não ter tentado. Espero de coração ter feito a diferença para meus alunos e espero que a retribuição venha na forma do sucesso que eles alcancem. Alguns vejo com orgulho, freqüentando escolas técnicas, faculdades e empregados em bons trabalhos, e sei que sou parte, mesmo que de uma fração ínfima, desse sucesso. Aprender é algo essencial para a vida, mas ensinar é uma arte tão essencial quanto. Sou grato por ter tido a oportunidade de ter sido um educador durante esse período e sou grato mais ainda aos alunos que me ensinaram mais do que eu ousava saber.

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende".
(Guimarães Rosa)
Dedicado às turmas QE1B e QF1B de 2010 e a todas as outras que as antecederam.


NAMASTE!

21 de dezembro de 2010

Eu vi: The Walking Dead 1ª Temporada

Este post pode conter SPOILERS ocasionais
 
Baseado na HQ homônima, The Walking Dead conta a história de um grupo de humanos lutando por suas vidas após o que alguns conhecem como o Z-DAY (ou dia dos Zumbis).
A história tem como seu ponto central o personagem Rick Grimes (Andrew Lincoln), policial que entrou em coma após ser atingido por um tiro em uma ação de rotina da polícia. Enquanto ele está em coma os eventos que levam ao Z-Day ocorrem aparentemente em todo o mundo e ao acordar ele percebe que as coisas estão um tanto fora do normal, fazendo com que ele vá em busca de sua esposa Lori Grimes (Sarah Wayne Callies) e seu filho Carl Grimes (Chandler Riggs).
Nos EUA a série tem sido exibida pelo canal AMC e em outros países a distribuição é feita pelo canal FOX, chegando a 120 países.
O seriado é produzido e dirigido por Frank Darabont, o mesmo produtor de A Espera de um Milagre e apesar de contar com a supervisão do próprio Robert Kirkman, o escritor da HQ, a série apresenta boas diferenças do material original (do qual só li as três primeiras edições de 26 até então publicadas).


Gosto de filmes de zumbi em geral, me diverti bastante com A Madrugada dos Mortos (do "visionário" Zack Snyder) e o engraçadíssimo Zumbilândia (com Whoody Harrelson), comecei a acompanhar a série mais por curiosidade devido ao falatório geral que surgiu em torno dela, mas devo admitir que não achei essa "Coca Cola toda" que alardearam e explicarei por que.
The Walking Dead é uma série boa, bem dirigida e com um clima de suspense bem interessante. Apesar de conter em seu elenco uma porção de rostos desconhecidos, conta com boas atuações dramáticas, o que só contribui para o desenrolar da trama. Mesmo assim eu não senti o algo mais que me prendeu a LOST e a True Blood (que ainda não terminei de ver a 3ª temporada). 


A história focada no personagem de Andrew Lincoln conta com algumas reviravoltas interessantes apesar de possuir um ritmo muito mais rápido do que o da HQ, e assim como a maioria das adaptações de quadrinhos pra outra mídia, escancara o que é apenas sutilmente contado em sua origem. O envolvimento entre Shane (Jon Bernthal) e Lori que é apenas mencionado como uma suspeita nas primeiras edições da revista, por exemplo, já é mostrado explicitamente na série. Outros pontos são adicionados para aumentar a dramaticidade das cenas como o dia em que Rick foi alvejado e levado ao coma, e há sim um balanço importante entre a série e a história em quadrinhos, o que as tornam igualmente palatáveis, cada uma no seu estilo.

Quem vê a série não necessariamente precisa conhecer os quadrinhos porque a história dita seu ritmo próprio. Mais curta que as demais de seu gênero, com apenas 6 episódios, Walking Dead condensa de forma competente toda a história e relacionamentos entre os personagens, mas perde o ritmo vertiginosamente a partir do 4º episódio, tornando-se meio cansativa. O 1º episódio é primoroso e nos apresenta as pessoas envolvidas na narrativa de forma clara e precisa, sem grandes enrolações. Há ainda um mistério por trás de tudo que ocorreu entre o início e o fim do coma de Rick e em especial o que alastrou a praga zumbi pelo mundo (respostas que só começamos a ter no 6º episódio).
Até então solitário, Rick reencontra os familiares e o amigo "fura-olha" Shane numa espécie de povoado em Atlanta, longe do centro da cidade, e então, após serem atacados por uma horda de mortos-vivos e tendo muitas baixas entre seus colegas, o policial decide partir em busca de ajuda e respostas para o que começou tudo aquilo. É interessante notar, que o até então deslocado Rick tem essa ideia de seguir rumo a uma base militar onde a praga parecia ser combatida do nada, como se ele estivesse estado ali desde sempre. A direção da série deve ter se esquecido que o cara estivera desacordado durante o Z-Day!!
Quando eles partem em busca da base de pesquisas encontram um único médico que lhes explica o que acontece com as pessoas infectadas, embora ele não saiba (ou finja que não) como aconteceu o primeiro caso. Em busca de proteção eles acabam apenas descobrindo alguns detalhes que não sabiam sobre os errantes, mas partem de novo quando o laboratório explode sem condições de continuar a ser usado pela falta de energia.

A série vale pelos momentos de tensão e mortes dramáticas que acontecem no seu decorrer, mas a primeira temporada terminou muito aquém de como começou. Pelo tanto de burburinho que gerou eu esperava mais e fico no aguardo da próxima temporada no longínquo Outubro de 2011 mesmo não tendo curtido tanto assim a 1ª.

NAMASTE!

17 de dezembro de 2010

Vote em mim em 2014!

O salário mínimo é uma merreca, a 1ª parcela do meu 13º já acabou faz tempo e quem ganhou o presente de Natal antecipado foram os parlamentares.
Essa semana foi aprovado o aumento de salário para deputados (comemora, Tiririca!), senadores e Presidente no Plenário da Câmara, e a votação, como era de se esperar, ocorreu de forma rápida. Quem dera a votação para leis fosse tão ágil quanto essas aprovações para aumento salarial!
A galera que mais sua no Brasil ganhou um reajuste considerável. Só os deputados vão receber um aumento de 61,8%, e seu salário passará dos míseros R$ 16,5 mil (dinheiro que gasto com a comida do cachorro) para R$ 26,7 mil (ver o gráfico comparativo abaixo).


Dilma, Martha e todo o bonde do PT também já entram com o pé de meia feito e já tramita na Câmara um novo pedido de aumento também para os ministros, que alegam querer uma espécie de emparelhamente salarial em todos os poderes: Judiciário, Executivo e Legislativo.
Nada mais justo que esses homens e mulheres que trabalham pelo povo recebam bem por isso. Eles representam os nossos interesses e precisam de conforto e estabilidade para executarem bem seus papéis.
Afinal quem estuda merece mesmo reconheci-- hã? O Tiririca é semi-analfabeto? Não terminou nem o primário? Opa! Desconsiderem as duas últimas linhas.

Para se ter uma ideia do novo poder aquisitivo da galera, com seis meses de salário de um Deputado e enconomizando um pouco (comprando um porquinho, sei lá) daria para comprar um Camaro à vista, agora que ele está à venda em terras tupiniquins, 9 Playstation 3 de 80 GB de capacidade, em torno de 18 Ipads wi-fi de 16 GB da Apple e mais ou menos 2400 Whoopers do Burger King!

Photobucket

Com esse dinheiro todo e vendo que o mercado de Design Gráfico e de informática anda meio saturado eu tomei uma decisão: Lançarei minha campanha para Deputado Federal para 2014!!

É um cargo bom e rentável que não exige nem conhecimento e nem experiência, a carga horária é curta (tendo em vista que a câmara dos deputados vive às moscas), existem ótimos benefícios e ainda poderei empregar metade da minha família (nepotismo não existirá em meu dicionário). Aliás, dicionário? Não terei mais pobrema ninhum com a límgua purtugeza, pois farei questão de esquesse-la compretamente. Eçe negóssio só serve pra atrapaiá mesmo.

Preparem-se. Em 2014 (se o mundo chegar até lá) votem no cara certo. Prometo descobrir pra que serve um deputado muito antes do Tiririca e trarei a resposta para vocês.


Em 2014 vote em Rodrigo. Com Rodrigo não tem perigo!!

NAMASTE!

13 de dezembro de 2010

Wikileaks e a liberdade de expressão

Ainda não é possível prever como será a partir de 2011, mas esse ano que segue já em agonia para o fim, foi marcado por cerceamentos da liberdade de expressão midiática, ou para os mais temerários, marcado pelo fantasma da censura e do autoritarismo.

Para quem não lembra, ou prefere esquecer, o próprio Presidente Lula que em breve estará de pijama em sua casa (longe do Planalto, de preferência) fez acusações mordazes quanto ao direito de imprensa de se expressar. Não só isso, acusou alguns meio de comunicação de fazer campanha contra sua candidata (a agora eleita Dilma), de estarem disfarçados de partidos de oposição e de não estarem publicando notícias corretamente. Em outras palavras, de não estarem puxando seu saco.

Todo esse ressentimento começou após os escândalos da Casa Civil que culminaram, coincidentemente ou não, com o afastamento do até então braço direito de Dilma Roussef quando esta ainda era a chefe da Casa Civil, Erenice Guerra. Se alguns meios midiáticos são de oposição ao governo e às vezes o atacam ferrenhamente, eles nada mais estão fazendo do que exercendo sua liberdade de falar e escrever o que quiserem num país considerado democrático. Não vivemos num regime autoritário em que corremos o risco de sermos queimados em praça pública apenas pela coragem de expor falcatruas e libertinagens com dinheiro alheio. Pelo menos não vivemos ainda. 2011 a Deus pertence. Também não temos (e eu volto a insistir no ainda) uma cartilha governamental a seguir que diz o que é correto e o que não é correto dizer em blogs, jornais e revistas, segundo seus próprios termos. Temos sim um compromisso com a verdade, seja ela pró ou contra os manda-chuvas, e disso não devemos abrir mão.

Se no Brasil, um país de terceiro Mundo emergente, a mídia já começa a sofrer problemas de cerceamento da liberdade imagine no exterior, onde esse processo costuma ser ainda mais rígido!

Semana retrasada estouraram notícias sobre a publicação de 250 mil documentos sigilosos de diplomacia americana, incluindo informações ácidas sobre diferentes relações com vários países, estando o Brasil nessa lista. O site Wikileaks (que significa algo como “Vazamentos Rápidos”) ganhou as primeiras páginas de vários jornais e portais de Internet ao liberar tais informações, retomando o debate de até onde vai a liberdade de expressão.

Lançado em 2006 (embora eu nunca tenha ouvido falar antes) por dissidentes , jornalistas, matemáticos e tecnólogos de diferentes países e dirigido pelo australiano Julian Assange, o WikiLeaks foi criado sem fins lucrativos e baseado em alguns dos princípios de informação livre, para divulgar posts de fontes anônimas contendo fotos, vídeos e documentos confidencias vazados de empresas e governos, sobre assuntos sensíveis. Vocês leram certo. Informação livre.

Embora o site não divulgue nenhuma invenção ou boato, ataques de diversas partes e fontes, em especial americanas começaram a ser deflagrados contra o site e seus criadores, o que colocou o nome de Julian Assange na lista de procurados da Interpol devido a polêmica gerada pelos documentos divulgados.

Em julho deste ano, o Wikileaks já havia publicado 91 mil relatórios sobre a Guerra do Afeganistão (que revelam crimes de guerra e um nível mais amplo e denso de violência no Afeganistão do que já foi divulgado pelos militares ou reportado pela mídia) causando o desconforto dos americanos que são os principais (ir) responsáveis por sua duração até hoje. A rede possui o aval de importantes jornais mundiais (inclusive americanos) como o New York Times e a revista alemã Der Spiegel, que funcionam como consultores para a que o site não publique nenhuma inverdade. Embora isso seja usado, é a cúpula do site que decide se publica ou não determinado assunto, levando em conta o grau de “secretismo” no qual cada um deles é classificado.

Assim como no Brasil que os meios de comunicação são acusados de serem “do contra” por não compactuarem 100% com as opiniões e ações do Governo, os Estados Unidos se viram contrariados quando documentos revelando os detalhes podres da sua guerra foram publicados, o que levou o país a tomar medidas para "punir" os responsáveis. Punição, a meu ver, deve ser executada para quem infringe leis e não para quem defende a liberdade de informação. Não é de hoje que esse direito é deliberadamente violado.


Movidos por essa indignação, hackers começaram a invadir o sistema de órgãos que apoiavam a ação americana de “punir” os idealizadores do Wikileaks (derrubando muitos deles) e isso provocou uma discussão que dividiu as pessoas em prós e contras à exibição desses documentos secretos. Embora alguns acidentes diplomáticos possam ser causados (como no caso da diplomata americana que afirmou que Lula estava “cacarejando” suas conquistas ambientais e sua capacidade de costurar um acordo), em sua quase totalidade os documentos exibidos pelo Wikileaks servem para expor tudo aquilo que vai para baixo do tapete, e que os poderosos escondem em nome da falsa moral. Como bem disse um dos hackers que agiram contra o sistema da Mastercardé preciso defender uma sólida posição sobre censura e liberdade de expressão na internet e nos voltamos contra os que buscam destruí-la por qualquer meio”, e assim deveria ser encarado por todas as pessoas, não exatamente invadindo sites, claro, por que isso é um ato tão infrator quanto cercear a liberdade de expressão. O simples ato de vociferar contra a censura, entrar nas redes sociais e apoiar as ações do Wikileaks já ajuda, e um manifesto em prol da causa esteve circulando no Twitter essa semana com esse intuito. Acesse e assine você também. A causa é válida!

Antes que me classifiquem como anarquista, comunistinha de faculdade ou Tucano (o que seria uma disparidade) devo alegar que essa é a minha opinião sobre os fatos acima apresentados e não estou movido por partido A ou B. Apoio os ideais do Wikleaks e nesse caso não há mal nenhum que o circo pegue fogo de vez em quando, desde que a verdade venha à tona. Já no nosso circo tupiniquim é sempre bom lembrar que o panem et circenses continua mais forte do que nunca, causando aquela anestesiante sensação de bem estar. Só não podemos deixar que a lona do circo cubra todos os vestígios de corrupção e falcatruas, calando (cegando e amordaçando) de vez o nosso mais precioso bem: o direito da palavra, seja ela escrita ou não.

Olho no autoritarismo e na censura, gente. Nunca se sabe quando esses fantasmas poderão retornar.



NAMASTE!

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