24 de maio de 2010

Análise: Os filmes do Justiceiro

O Justiceiro foi criado em 1974 por Gerry Conway, Ross Andru e John Romita (Pai), inserido numa história do Homem Aranha (no Brasil, uma das publicações foi em Teia do Aranha nº 25 da Editora Abril), e o motivo de sua cruzada contra o crime é o assassinato de sua família, esposa e dois filhos (uma menina e um menino) em pleno Central Park. Na ocasião, Frank Castle (o alter-ego do Justiceiro) e sua família presenciaram uma execução feita pela máfia e pagaram o preço ao serem baleados a fim de que não houvessem testemunhas do crime. Sendo o único a sobreviver, Frank decidiu utilizar seus conhecimentos adquiridos no exército para declarar guerra aos homens que mataram sua família, vingando-a dessa forma. Mais tarde ele resolveu estender sua vingança a todo tipo de criminoso que ousasse dar as caras nas ruas, tornando-se ele próprio o juiz e o carrasco.

No cinema o personagem já teve três encarnações, uma de 1989 onde ele era vivido pelo eterno Ivan Drago de Rocky 4 Dolph Lundgren (The Punisher), outra de 2004 vivido por Thomas Jane (The Punisher) e a versão mais recente de 2008 onde o personagem é interpretado por Ray Stevenson (The Punisher - War Zone).

Esse artigo se propõe a analisar as duas versões do século XXI onde o Justiceiro recebeu um tratamento mais, digamos, fiel aos quadrinhos, e a discussão gira em torno justamente disso: qual das duas versões cinematográficas chegou mais perto das histórias em quadrinhos e qual delas é uma opção de entretenimento mais palpável.


Para melhor entendimento durante o post, tratarei o filme de 2004 de Justiceiro 1 e o de 2008 como Justiceiro 2, embora um não seja exatamente a continuação do outro.
O Justiceiro 1 foi dirigido pelo estreante no ramo Jonathan Hensleigh, que até então só havia colaborado em roteiros de filmes como Armageddon e Duro de Matar 3 - A Vingança, ambos com Bruce Willis nos papeis principais. Considerados filmes “pipocas” dos anos 90 (ou Blockbusters) ambos possuem boa dosagem de ação e convencem naquilo que se propõem a fazer, embora no caso de Duro de Matar 3, os dois longas anteriores da série sejam mais originais. Armageddon foi dirigido pelo controverso Michael Bay, hoje em dia tão criticado por seus filmes descerebrados (Transformers, cof! Cof!), mas naquela época fora um filme de sucesso, já que o tema fim do mundo parecia ser novidade.
Jonathan Hensleigh jamais havia estado atrás das câmeras antes de Justiceiro 1 (e pela estréia, pelo jeito nunca mais estará!) e embora tenha acertado no tom de ação de algumas cenas errou na maioria delas, deixando Frank Castle menos sanguinário e mais sentimental. Como Hensleigh também colabora no roteiro ao lado de Michael Tolkin e Michael France, ele é culpado não só pela direção desastrosa, mas também pela história que vem do nada e segue para lugar nenhum.
Muitas coisas fazem de Justiceiro 1 um filme aquém do que os fãs esperavam, mas o ritmo com que a história é ditada é a pior delas. A trilha sonora é fraca, e não ajuda nas cenas mais trágicas (como na morte da família de Castle). Hensleigh opta por criar um mundo diferente pra Castle, onde ele só possui um menino como filho e onde toda a família (incluindo pai, mãe, parentes, amigos) é chacinada em retaliação a uma das ações policiais do soldado. Bem longe da fonte de onde o roteiro foi “inspirado”.


Justiceiro 2 é dirigido por Lexi Alexander que antes disso havia estado por trás das câmeras do bom e violento Hooligans, de 2005, protagonizado por Elijah Wood (sim, e eu disse violento mesmo). Com a missão de apagar o fraco desempenho do 1º filme e deixar uma marca mais sanguinolenta no personagem, que era o que todos esperavam de um filme intitulado “Justiceiro”, Alexander chutou o balde, e botou Castle para estourar miolos desenfreadamente em cenas pra lá de estúpidas, como bem estávamos acostumados nos filmes dos anos 80. O resultado? Justiceiro 2 é um filme bem mais sombrio que seu antecessor, mas a história mostra claramente que o Frank Castle desse, não é o mesmo que torturava informantes com picolés no 1º. Em um flashback rápido vemos os corpos de duas crianças no dia em que sua família foi morta, e Castle chega a citar que teve uma filha, fazendo com que o espectador desassocie os dois filmes.
Justiceiro 2 não chega a ter um roteiro impecável. A linha da história é bem tênue e mostra Castle como um alvo tanto da Polícia quanto da máfia, fazendo com que ele entre em conflito com as duas frentes. O erro desse longa é colocar alguns policiais como “amiguinhos” de Castle no fim, além de deixar o vilão Retalho meio abobalhado, se assemelhando em personalidade ao horrível Duas Caras do filme Batman Eternamente. Nada contra Tommy Lee Jones, que é um ótimo ator interpretando principalmente personagens cascas-grossas, mas o seu Duas Caras mais parecia um palhaço, graças ao “genial” Joel Schumacher que dirige o filme. Onde Hensleigh tirou o pé do acelerador para limitar seu filme ao PG-13 americano (limite de idade que acho um erro para um filme com esse tema), Lexi Alexander pisou até o limite e atropelou tudo pela frente, incluindo coerência no roteiro.
Em Justiceiro 1 temos um vilão que não existe nas HQs chamado Howard Saint (John Travolta). Em busca de vingança pela morte do filho (que ocorre durante uma falsa transação envolvendo drogas), Saint descobre que Frank Castle era um agente da Polícia infiltrado na negociação e resolve acabar com sua vida e a de sua família, a pedido da esposa Lívia (Laura Harring).
Na história do filme, o símbolo da caveira utilizado pelo anti-herói é na verdade de uma camiseta dada de presente por seu filho e ele a decide usar como símbolo após o massacre. Toda a família comemora a união em Porto Rico, num clima de sol e praia, diferente da escuridão característica de Nova York, representada como ambiente do personagem nas HQs, e logo são executados pelos capangas de Saint que são liderados por Quentin Glass (Will Patton), o braço direito do chefão da máfia.
Como alívio cômico do filme são usados dois vizinhos do apartamento onde Castle vai morar após a morte da família, Dave (Ben Foster) e Bumbo (John Pinette), e a belíssima Rebecca Romjin Stamos (A Mística de X-Men) faz as vezes da vizinha doce, que acaba tendo uma queda pelo soturno Frank ao longo do filme.

Em Justiceiro 2 é inserido (em pouquíssimas cenas) o ajudante de Frank nos quadrinhos Microchip (Wayne Knight), que é também seu fornecedor de armas e aparatos tecnológicos. O vilão da vez é Billy “o Belo” Russoti (Dominic West), um gangster que se aproveita da execução do chefão da máfia da cidade pelas mãos do Justiceiro para dominar o submundo e que tem o rosto desfigurado após enfrentar o anti-herói. Voltando pouco depois com a face costurada, ele se torna então o Retalho (que é um dos vilões clássicos do Justiceiro nas HQs) ao lado do irmão Billy Maluco (Doug Hutchison o Percy de À espera de um Milagre e o Horace da 5ª Temporada de LOST).
Após matar acidentalmente um agente do FBI, Castle tenta se aproximar de sua viúva Angela (Julie Benz) e a filha dele Grace (Stephanie Janusauskas), cheio de culpa, e mais tarde tem que salvá-las das garras de Retalho e sua gangue. Aliás, essa culpa ele carrega durante todo o filme, o que o torna as vezes sentimental demais.

Thomas Jane nunca fez filmes de muita expressão, o que torna difícil analisá-lo como ator só por esse trabalho. Ele interpreta Frank Castle de forma econômica e chega a beirar a canastrisse em algumas cenas. Em poucas cenas ele parece ameaçador ou um cara que está sofrendo pela morte da esposa e do filho, mas se por um lado ele deixa a desejar em cenas dramáticas ele se dá melhor em cenas de ação, e seu físico o deixa levemente semelhante ao personagem nos quadrinhos. Destaque para sua luta contra o russo (que se assemelha muito ao personagem Lápide dos quadrinhos) em sua casa:

Em muitos casos no cinema vemos os bandidos roubando a cena do herói como em Batman de Tim Burton onde Jack Nicholson como o Coringa consegue apagar o Bruce Wayne de Michael Keaton, mas no caso de Justiceiro 1, o vilão é tão sem graça quanto o herói. John Travolta não convence como um cara mal nesse filme, diferente do show de interpretação que ele dá um Pulp Fiction de Quentin Tarantino, filme que o tirou do ostracismo. Se Thomas Jane é canastrão, Travolta consegue ser duas vezes mais, e o final de seu personagem é tão patético quanto muitas de suas cenas no decorrer do filme. No quesito maldade o personagem de Travolta até mostra serviço quando joga a própria esposa na linha do trem, demonstrando total desprezo a ela e nenhum remorso, mas novamente o ator parece mais constipado do que maldoso.
Will Patton consegue passar mais seriedade em seu papel, o braço direito de Saint, e a cena onde ele tortura o personagem de Ben Foster arrancando-lhe seus piercings é de causar aflição dado o sadismo que o ator consegue transmitir.

Se compararmos Ray Stevenson com Thomas Jane, incrivelmente Jane ainda leva uma certa vantagem dramaticamente falando, o que não faz seu Justiceiro melhor do que o de Stevenson. O ator inglês de 46 anos é a carranca de Frank Castle sem tirar e nem por, e sua caracterização ficou muito semelhante a das ilustrações de capa da revista Punisher feitas por Tim Bradstreet. O sotaque britânico do ator incomoda em algumas cenas (Castle é nova-iorquino), mas isso não é um problema nos 20 minutos iniciais, já que o personagem nem abre a boca. A falta de falas é substituída por uma chuva de balas que o Justiceiro despeja sobre a família da máfia e logo depois nas cenas em que Russoti se torna o Retalho. Diferente de Justiceiro 1, o 2º filme tem poucos combates físicos e as coisas são resolvidas mais nos tiros e facadas (como deve ser), portanto, não podemos ver muito do desempenho de Stevenson em lutas corporais, exceto quando o agente do FBI tenta prendê-lo e quando ele dá uma surra em Billy o Maluco. De qualquer forma, o inglês é sim um bom ator, e consegue convencer na pele de Castle mais do que Thomas Jane pelo menos.

Como disse anteriormente, o personagem Retalho me deixou incomodado (e não foi pela maquiagem muito bem feita em seu rosto), e seu ar “sou mal, mas sou engraçadinho” tirou o terror que alguém cujo rosto fora desfigurado poderia exercer sobre seus adversários. No início, quando ele ainda é “o Belo” seu personagem incomoda pela arrogância, mas depois cai na chacota deixando para seu irmão o papel do vilão malvado, coisa que Doug Hutchison sabe fazer muito bem por sinal. Agora o que dizer de um vilão maldoso e extremamente habilidoso na luta corporal? O dublê de Hutchison (claro, porque ninguém acredita que é ele ali saltando e dando aqueles golpes) deu show.


Como bem disse, Justiceiro 1 não possui trilha sonora (exceto a música do Seether e da Amy Lee do Evanescence). As cenas que deveriam causar comoção causam no máximo uma dobra na sobrancelha do expectador, e as de ação são totalmente abafadas pelos tiros e gritos. No caso de Justiceiro 2, até hoje rolam boatos que Lexi Alexander (a diretora) foi expulsa da produção muito antes dela ser concluída exatamente pela escolha da trilha sonora, que não estava muito de acordo com o clima do filme. Ela queria uma coisa, os produtores queriam outra. A solução foi encher todas as cenas com New Metal e deixar a gritaria ser o pano de fundo do tiroteio, o que no meu caso, agradou muito mais do que aquelas cenas silenciosas do 1º filme. Esse fato me fez lembrar do filme Mandando Bala (com Clive Owen), cujas cenas de tiroteio também são ao som de rock n’ roll, dois elementos que casam muito bem.

Desde que o velho Frank usava o colante azul com botas e luvas brancas, uniforme que o originou nas HQs, o elemento central de seu visual sempre fora a caveira no peito. Desenhada de forma padrão ou estilizada ela sempre foi a marca do personagem e era o que mais os fãs reclamavam do filme de Dolph Lundgren, que até tinha um ritmo legal, embora tenha sido feito (e tratado) como uma produção de fundo de quintal.
Se Thomas Jane usava sua camiseta suja com o símbolo de vez em quando no filme (depois ele adota um colete de kevlar com a marca), o Justiceiro de Stevenson a mantém no peito quase esmaecida, o que de certa forma a descaracteriza um pouco, já que ela é usada (assim como o símbolo do Batman no peito) como um chamariz para que os bandidos atirem nessa área (reforçada) ao em vez de na sua cabeça.

Qual dos dois filmes representa melhor a alma do personagem dos quadrinhos?
Embora tenha tido diversos problemas de produção e de ter sido tratado desde o início como um filme B da Marvel, diferente dos medalhões Homem Aranha e Homem de Ferro, Zona de Guerra faz muito mais jus ao nome Justiceiro do que seu antecessor, que quase chega a ser um filme pra se ver na Sessão da Tarde. Claro que a estupidez das cenas de tiroteio, as cabeças explodindo em meio à violência gratuita colaboraram para afastar o público médio dos cinemas (no Brasil nem no cinema ele foi lançado), e esse tipo de exagero costuma agradar mais os fãs do que o público em geral. Como disse no review do Homem de Ferro, na sessão em que assisti havia todo tipo de gente, desde os fãs aos completamente ignorantes sobre quadrinhos, e no caso do Justiceiro Zona de Guerra, quem mais deu público foram os fãs.

Nenhum dos filmes chega a uma nota 7 sequer, mas o 2º tem mais a cara de Justiceiro, enquanto o primeiro poderia ser sobre qualquer cara em busca de vingança, o que tem aos montes em Hollywood.


O filme Código de Conduta estrelado por Gerard Butler (o Rei Leônidas de 300) tem muito de Justiceiro, e é um filme de extrema qualidade que poderia muito bem ilustrar um Frank Castle se a Marvel apostasse no personagem tanto quanto aposta no já saturado Homem Aranha e na franquia X-Men, mas isso já é outra história...




NAMASTE!

4 comentários:

  1. o simbolo e muito locão

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  2. eu tenho uma camisa da caveira eu igualk zinha esa

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  3. Essa penúltima imagem usada em seu post possui três caveiras. Qual eh a certa? A do filme eh a terceira, a primeira eu nunca vi mas eh mt utilizada nas camisetas. PQ?

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