12 de agosto de 2010

Batman contra o Capuz Vermelho

Há algum tempo atrás, uns três anos no máximo, comecei a ouvir boatos de que Jason Todd, o segundo Robin a assumir o cargo, iria retornar dos mortos de forma misteriosa.

O que? Você não sabia que o Robin já havia morrido? Pois é. Aconteceu na saga “Morte em Família”, título que ainda falta na minha coleção, mas do qual já li vários artigos relacionados.

O retorno de Todd que ocorreu num passado não muito longínquo é retratado de forma bem similar ao da HQ no longa animado Batman contra o Capuz Vermelho, onde o antigo menino prodígio (ou rodízio, como diria o Coringa) volta da tumba na pele do misterioso Capuz Vermelho, um bandidão que almeja controlar o crime organizado de Gotham City utilizando meios bem persuasivos.

Gostei muito do clima do filme e do enredo, só que dessa vez devo comentar que a animação deixou um pouco a desejar em relação a outros longas animados recentes como Crise nas Duas Terras (que eu já fiz o Review aqui), Mulher Maravilha e do Lanterna Verde: Primeiro voo. A movimentação dos desenhos acontece de forma meio apressada e desajeitada, o que prejudica um pouco durante as cenas de ação. Assim como vem acontecendo nos últimos filmes da DC como Superman/Batman Inimigos Públicos e no ainda inédito Superman/Batman Apocalypse, os desenhos de Batman contra o Capuz Vermelho são inspirados nos traços do desenhista da obra original, nesse caso os do artista Doug Mahnke, que rabiscou a HQ que mostrou a ascensão de Jason Todd. De qualquer forma, exceto esse pequeno probleminha técnico de movimentação, a animação é bem empolgante, sendo seu forte os diálogos afiados, em vez das cenas de ação.

Na versão original, Bruce Greenwood emprestou sua voz ao Batman, enquanto Jensen Ackles (um dos irmãos Winchester da série Supernatural) dubla Jason Todd. No Brasil, Mauro Ramos, conhecidíssimo por dublar o Pumba, o Shrek, o Sulley de Monstros SA e a maioria dos personagens grandalhões do cinema, recebeu a missão de dublar o Coringa, e se saiu muito bem, como sempre. Já o outro vilão da história, o Máscara Negra foi dublado pelo lendário Isaac Bardavid, que no passado já dublou o Esqueleto do He-Man e é mais conhecido por dublar o Wolverine tanto na primeira série animada dos X-Men quanto nos filmes. Sua interpretação pessoal deixou o Máscara Negra ainda mais engraçado, uma vez que ele apesar de mal, é um dos alívios cômicos do desenho. Por alguns momentos pude me lembrar daqueles chiliques que o Esqueleto dava sempre quando He-Man estragava seus planos, e a voz de Bardavid é inconfundível, combinando bem com a cara cadavérica do Máscara Negra. Nota 10 para a dublagem.


Para escrever esse post tive que dar uma revirada nas minhas HQs do Batman da época do retorno de Jason Todd e notei algumas diferenças em relação ao longa animado, o que sempre ocorre numa adaptação. Nunca essa transição do papel para a tela acontece de forma 100% fiel. As alterações amenizam um pouco a carga dramática que envolve o que o próprio Batman considera como sua maior falha, e quando ele se vê assombrado por fantasmas do passado ele começa a questionar sua verdadeira culpa em relação à morte do Robin pelas mãos do Coringa.

Nas HQs, sempre que um personagem volta da morte sem que isso seja tratado de forma competente pelo roteirista, é quase como se as editoras de quadrinhos estivessem carimbando “idiota” em nossas testas. Dificilmente eu vi uma ressurreição feita com tanto cuidado como Ed Brubaker fez com o Bucky, nas histórias do Capitão América. Ele trouxe de volta o personagem, que teoricamente teria morrido na época da 2 ª Guerra, de forma gradativa e adicionou uma porção de retcons (eventos inseridos posteriormente na cronologia) à história do Capitão para que isso fizesse sentido. E fez. No caso de Jason Todd, o trouxeram de volta quase que como num “passe de mágica” (mais ou menos como apagaram mais de 20 anos da história do Homem Aranha também). Jason foi trazido de volta à vida, seis meses após sua morte (na cronologia normal) quando o Superboy da Terra Prime (na teoria, a primeira Terra, onde os super-heróis não existem de verdade) golpeou as “paredes da realidade” para que ele pudesse escapar de sua prisão. Isso acarretou uma “onda” de acontecimentos em nosso mundo, o que acabou ocasionando a ressurreição de Todd.
Faz algum sentido pra você? Pra mim também não. Foi uma das desculpas mais fracas do qual já ouvi falar para trazer de volta um personagem, porém serviu para gerar ótimas histórias com um enredo bastante intrigante: O que o Batman faria se sua maior falha retornasse para tocar-lhe a ferida? Na animação, quem o traz de volta à vida é um dos Poços de Lázaro de Ra’s Al Ghul, que o vilão usa para rejuvenescer. Jason não só é trazido à vida como também se torna mais vigoroso, e após escapar começa sua peregrinação para se tornar o Capuz Vermelho. Desfecho digno para um início pífio.

Enquanto para o Batman a dor de sua perda é seu maior problema, para Jason a questão é mais profunda: Por que Batman jamais se vingou daquele que o matou? Por que ele deixou o Coringa vivo, permitindo que ele continuasse sua onda de crimes, escapando do Arkham a toda hora e manchando Gotham de sangue? Por que Batman jamais eliminou aquele que matou o Robin?

Esse questionamento torna Jason um adversário de seu mestre, levando o garoto a combater o crime da sua maneira. Por que destruir o crime se é mais fácil controlá-lo? Dessa forma, assumindo o manto do Capuz Vermelho, Todd passa a dominar o submundo tomando-lhe de assalto e deixando a maioria dos criminosos da cidade de olho em suas ações, e preocupados com elas. O Máscara Negra é o primeiro a ser atingido pessoalmente quando seu comando do crime começa a ser ameaçado, e ele tenta de tudo para se livrar de seu inimigo incluindo contratar vilões superpoderosos (na HQ ele usa o Mr. Freeze). No entanto, fica claro que só o Batman pode enfrentar o habilidoso Capuz Vermelho e é interessante notar que ele acaba se tornando uma versão mais jovem e melhorada de Bruce Wayne, tendo inclusive, treinado ao redor do mundo durante os anos em que esteve desaparecido, assim como seu mentor. Jason acaba por vezes superando Batman em combate, mas isso fica claro que é por causa do abalo emocional que o Homem Morcego sofre quando percebe que seu oponente é o Robin que ele deixou morrer.

A mim agrada muito a ideia de ver Batman enfrentando alguém que conhece seus truques e que ele mesmo ensinou, acabando um pouco com essa "pose de invencível" que ele tem. O que aconteceria se o Asa Noturna ou o Robin Tim Drake se voltassem contra ele? O Resultado seria parecido. De tempos em tempos surge uma versão “melhorada” de algum herói, mas no final, sempre o original prevalece, se mostrando com mais escrúpulos do que seu predecessor. No caso de Jason, ele mesmo admite que é um Batman melhor que Wayne por não ter tanto pudor em matar em nome do que ele acha certo, mas por fim, o heroísmo prevalece. O final da história na animação também é alterado e se torna menos dramático que o original. Batman é confrontado diretamente, é questionado de o porquê deixou o Coringa vivo mesmo depois de tudo que ele fez, e sempre aquele código de honra vem à tona: Se o Batman o matasse, ele se igualaria a seu inimigo, e isso não o tornaria melhor e sim pior. Matar o Coringa em vez de entregá-lo à justiça mancharia aquilo que o Batman representa, e ele jamais conseguiria conviver com isso. Para Jason, no entanto, essa atitude o torna fraco, e prova que o Batman não tem coragem de vencer seus limites para vingar nem mesmo um filho morto.


Tenso, não é mesmo?

No desenho vemos um resumão da história toda, temos a presença do ex-Robin Asa Noturna ajudando Batman contra o andróide Amazo (como na HQ), temos o envolvimento de Ra's Al Ghul no ressurgimento de Todd, temos o Coringa intermediando o momento de tensão entre Wayne e Todd e temos também o Alfred, com a mesma dublagem do desenho animado do Batman da década de 90. Tudo isso culmina no final que é alterado para se tornar menos chocante (eu mesmo discordei da atitude que Batman tem nas HQs ao ter que decidir entre Jason e o Coringa), mas nada que afete a animação. Judd Winick, o roteirista da HQ foi muito feliz ao criar essa narrativa envolvendo Jason Todd, mas a forma como ele foi trazido de volta e o que ele se tornou depois do confronto com o Batman deixou bastante a desejar. Foi mais ou menos o que aconteceu com o Bane no Batman e com o Apocalypse no Superman: Dois vilões que vieram com tudo, destruíram seus adversários, mas que atualmente não passam de figurantes sem brilho. Assim como os personagens citados, Jason Todd só funcionou com esse propósito, o de ser um desafio à altura para o protagonista, mas esticar sua participação na trama torna seu conceito inicial bastante desgastado. Pena que os produtores de quadrinhos não ligam muito para isso.

Batman contra o Capuz Vermelho é uma ótima opção de divertimento, e pra quem não está muito ligado no que acontece na HQ tudo é bem mastigado durante uma hora e meia, só que como eu disse, de forma diferente à sua origem.

Nota: 8


NAMASTE!

3 comentários:

  1. Eu não li a volta do Jason Todd, nos quadrinhos, o fato dele voltar me desagradou então preferi não ler. Mas li a morte em família, a história é muito ruim, com batman aparecendo em plena luz do dia e outras coisas. Sem contar que o motivo do jason estar lá era procurar a sua mae.E não agir como Robin. Sinceramente como isso aconteceu no desenho foi melhor. Acho que colocava mais culpa no Batman. Gostei de saber alguns detalhes da volta do Jason nos quadrinhos. E seu post ficou muito bom, com uma boa quantidade de informações dos quadrinhos.

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  2. Obrigado, Cíntia!
    Eu acompanhei a volta do Jason embora também não tenha me agradado. O fato de termos um inimigo para o Batman treinado por ele mesmo é muito boa, mas a forma como isso se deu (as porradas do Superboy na realidade!!) e o que aconteceu depois foi muito decepcionante.

    Qualquer coisa podemos trocar algumas figurinhas sobre quadrinhos!

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  3. Sim, eu não acompanhei a volta do Jason, mas pelo que falaram, me parece que forma do batman contra o capuz vermelho foi melhor. Claro, eu adoraria trocar figurinhas sobre quadrinhos.

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