
Para um viajante do tempo que caísse agora na nossa realidade pareceria improvável que uma produção brasileira pudesse fazer história no Globo de Ouro — uma das premiações do cinema e TV mais prestigiadas do planeta — por um ano. Agora imagine em dois anos seguidos!
Mas foi o que aconteceu.
Em 2025 tivemos a glorificação de Fernanda Torres no Golden Globes por seu
papel ultradenso de Eunice Paiva em “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles. A
atriz carioca bateu nomes badaladíssimos do cinema como Angelina Jolie (“Maria”),
Nicole Kidman (“Baby Girl”) e Kate Winslet (“Lee”) e levou o prêmio de Melhor
Atriz de Filme Dramático merecidamente. Durante a premiação, ela fez um discurso lindíssimo
em que lembrou a mãe, Fernanda Montenegro, que esteve presente no Globo de Ouro
alguns anos antes por sua atuação em “Central do Brasil”, do mesmo Walter
Salles.
Ainda Estou Aqui perdeu o prêmio de Melhor Filme em Língua
Estrangeira para “Emília Pérez” — e já falei tudo o que achei desse filme aqui
—, numa das decisões mais equivocadas da história das premiações mundiais.
Esse ano, no entanto, o Brasil foi vingado, porque além do
prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama — que o nosso Wagner Moura abocanhou —,
“O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho também bateu os fortíssimos
concorrentes da França (“A Voz de Hind Rajab”) e da Coreia do Sul (“A Única
Saída”), se consagrando vencedor do disputadíssimo troféu de Melhor Filme em
Língua Estrangeira.
Com um discurso natural sem roteiro, o ator Wagner Moura que
viveu os personagens “Marcelo” e seu filho, Fernando, no filme, agradeceu ao
diretor Kleber Mendonça a quem chamou de “irmão” e, em seguida, valorizou a
importância do Golden Globes para o audiovisual brasileiro, assim como para a
cultura geral do país.
No palco, com o troféu em mãos, ele disse:
"[O Agente Secreto] É um filme sobre memória, a falta dela e um trauma geracional. Eu acho que se um trauma pode ser passado por gerações, os valores também podem. Esse prêmio vai para quem está seguindo seus valores em momentos difíceis".
Em seguida, agradeceu em português o apoio do povo
brasileiro à sua indicação:
"E para todo mundo no Brasil que está assistindo isso agora, viva o Brasil e a cultura brasileira".
Vale lembrar que “O Agente Secreto” é o segundo filme
seguido premiado no exterior por contar uma história mais ou menos do mesmo
período da política brasileira, a época da ditadura militar, o que só reforça o
quão importante é não deixar que as pessoas se esqueçam de um período tão
obscuro da nossa história, e que é essencial lembrar desse passado para que não
se cometam esses mesmos erros no futuro…
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| O cineasta Kleber Mendonça e a esposa Emilie Lesclaux |
Embora ainda haja parte da população brasileira que negue o quão nefasto foi o regime ditatorial que o país viveu, minimizando as suas consequências, se faz necessário que mais obras como essas sejam produzidas SIM, para que esse fantasma nunca mais volte a nos assombrar.
“O Agente Secreto” ainda bateu de frente contra grandes
produções hollywoodianas na categoria Melhor Filme de Drama, porém, foi
derrotado por “Hamnet: A Vida antes de Hamlet”, um filme produzido por Steven
Spielberg com direção de Chloé Zhao (a ganhadora do Oscar de 2021 por
“Nomadland”) e que conta a história do escritor William Shakespeare antes da
criação da sua peça mais memorável, Hamlet.
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| A diretora Chloé Zhao |
O filme brazuca ainda disputou com “Frankenstein” de
Guillermo del Toro e “Pecadores” de Ryan Coogler na mesma categoria, o que por
si só já confirma a sua qualidade como produto latino-americano.
Além do Carnaval fora de época provocado pela vitória dupla
de O Agente Secreto no Brasil, o Golden Globes ainda consagrou o filme “Uma
Batalha Após a Outra” com quatro prêmios, dois deles aquecendo a disputa para
o Oscar (Melhor Filme de Comédia ou Musical e Melhor Diretor para Paul Thomas
Anderson), e mais dois para o talento individual de Melhor Atriz Coadjuvante
para Teyana Taylor (que vive a personagem Perfidia, a mãe de Willa) e outro
para Paul Thomas Anderson como Melhor Roteiro em Filme.
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| Paul Thomas Anderson e Teyana Taylor |
A animação Guerreiras do K-Pop levou dois prêmios, o de Melhor
Animação (batendo de muito longe o sucesso de bilheteria “Zootopia 2” da Disney
e o criticado “Elio” da Pixar) e o de Melhor Canção em Filme com “Golden” a
música com o agudo mais impressionante da história do K-Pop.
Num discurso emocionadíssimo, a intérprete da música Ejae — que também
é a compositora da letra — desabafou sobre o fato de ela ter sido preterida no
passado e até criticada por “não ter a voz ideal para ser cantora”, e praticamente
esfregou o troféu de Melhor Canção na cara de todo mundo que um dia duvidou do
seu talento. Achei merecidíssimo o título de melhor canção, mesmo entendendo
que “I Lied To You” de Pecadores também é uma catarse musical e que
funciona muito bem no “videoclipe” encenado sobre a cultura negra durante a sua
execução no filme de Ryan Coogler.
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| A intérprete e compositora de "Golden" EJAE |
Por falar em Pecadores, apesar de eu o considerar o melhor
filme de 2025, o filme não levou o prêmio mais importante da noite — o de
melhor filme, obviamente —, mas faturou o de Maior Destaque em Bilheteria
(lembrando que o filme faturou US$ 366 milhões globalmente) e o de Melhor
Trilha Sonora. Como eu disse anteriormente, o filme tem momentos musicais
memoráveis que vão além da execução de “I Lied To You” e toda a história do filme gira
em torno de dois ex-gângsteres que se esforçam para abrir um clube musical para
negros nos Estados Unidos em plena época de segregação racial.
Ou seja, tudo a ver que o longa-metragem seja premiado por sua trilha sonora!
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| O diretor Ryan Coogler com o elenco de "Pecadores" no palco |
Só para não passar batido nesse post, a noite de Globo de Ouro ainda premiou Timothée Chalamet como Melhor Ator em filme de comédia por seu papel em “Marty Supreme” — que eu não vi — e Rose Byrne como Melhor Atriz de Filme de Comédia ou Musical. A atriz que foi a Moira MacTaggert em X-Men: First Class desbancou nomes como Amanda Seyfried (“O Testamento de Ann Lee”), Cynthia Erivo (“Wicked: Parte 2”) e Emma Stone (“Bugonia”) pela densidade da sua atuação magistral em “Se Eu Tivesse Pernas eu te Chutaria”.
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| Rose Byrne |
Apesar do prêmio
recebido e pelo seu título dúbio, o filme não se trata exatamente de uma
comédia — aliás, longe disso —, mostrando todo o drama vivido por uma mãe que
não está preparada para assumir esse papel e cuja vida parece sempre uma
montanha russa… sempre inclinada a descer em queda livre.
Conhecida por seus papeis engraçaralhos em comédias como
“Vizinhos” e “Missão: Madrinha de Casamento”, Byrne provou toda a sua versatilidade
assumindo uma personalidade mais dramática num papel que exigiu bastante da sua
capacidade interpretativa, no ótimo texto da também diretora Mary Bronstein,
que foi elogiada pela atriz durante o discurso da vitória do troféu.
O filme ainda está em cartaz em alguns cinemas por aí... e no seu streaming de
pirataria mais próximo.
O Globo de Ouro é sempre um aquecimento para o Oscar e com a
vitória dupla de O Agente Secreto cresce a expectativa para a grande premiação
do cinema esse ano. Será que Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura conseguem
fazer história mais uma vez vencendo as categorias de Melhor Filme Estrangeiro
e Melhor Ator e trazem o “Surfista Dourado” para o Brasil?
Veja a lista completa de vencedores do Golden Globes 2026:
Melhor filme de drama
- "Hamnet: A vida antes de Hamlet" (VENCEDOR)
Melhor filme de comédia ou musical
- "Uma batalha após a outra" (VENCEDOR)
Melhor ator em filme de drama
- Wagner Moura, "O Agente Secreto" (VENCEDOR)
Melhor atriz em filme de drama
- Jessie Buckley, "Hamnet: A vida antes de Hamlet" (VENCEDORA)
Melhor série de comédia ou musical
- "The Studio" (VENCEDOR)
Melhor minissérie, antologia ou filme para a TV
- "Adolescência" (VENCEDOR)
Melhor série de drama
- "The Pitt" (VENCEDOR)
Melhor atriz em série de drama
- Rhea Seehorn, "Pluribus" (VENCEDORA)
Melhor performance de comédia stand-up na TV
- Ricky Gervais, "Ricky Gervais: Mortality" (VENCEDOR)
Melhor atriz coadjuvante na TV
- Erin Doherty, "Adolescência" (VENCEDORA)
Melhor filme em língua não-inglesa
- "O Agente Secreto" (VENCEDOR)
Melhor filme de animação
- "Guerreiras do K-Pop" (VENCEDOR)
Melhor direção em filme
- Paul Thomas Anderson, "Uma batalha após a outra" (VENCEDOR)
Melhor destaque em bilheteria
- "Pecadores" (VENCEDOR)
Melhor atriz em minissérie, antologia ou filme para a TV
- Michelle Williams, "Dying for Sex" (VENCEDORA)
Melhor ator em minissérie, antologia ou filme para a TV
- Stephen Graham, "Adolescência" (VENCEDOR)
Melhor ator em filme de musical ou comédia
- Timothée Chalamet, "Marty Supreme" (VENCEDOR)
Melhor atriz em filme de musical ou comédia
- Rose Byrne, "Se eu tivesse pernas, eu te chutaria" (VENCEDORA)
Melhor roteiro em filme
- Paul Thomas Anderson, "Uma Batalha Após a Outra" (VENCEDOR)
Melhor trilha sonora de filme
- "Pecadores" (VENCEDOR)
Melhor canção em filme
- "Golden", "Guerreiras do K-Pop" (VENCEDOR)
Melhor podcast
- "Good Hang with Amy Poehler" (VENCEDOR)
Melhor ator em TV de musical ou comédia
- Seth Rogen, "The Studio" (VENCEDOR)
Melhor ator coadjuvante na TV
- Owen Cooper, "Adolescência" (VENCEDOR)
Melhor atriz em série de musical ou comédia
- Jean Smart, "Hacks" (VENCEDORA)
Melhor ator em série de drama
- Noah Wyle, "The Pitt" (VENCEDOR)
Melhor ator coadjuvante em filme
- Stellan Skarsgard, "Valor Sentimental" (VENCEDOR)
Melhor atriz coadjuvante em filme
- Teyana Taylor, "Uma Batalha Após a Outra" (VENCEDORA)
NAMASTÊ!








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